sábado, 15 de fevereiro de 2020

Pai, afasta de mim esse “cale-se!”



Na composição dos silêncios andei achando bom calar-me sobre muitas coisas. No ano que findou escrevi muito sobre política. Havia muito barulho e quase nenhuma poesia, o que acabava motivando desafogo sobre o mundo posto: medos, dores, desatinos. Mas carecia a calmaria para olhar o mundo com paciência, mesmo que houvesse tristeza e desalento.
2019 passou com muitos estragos. Foi tanta destruição que a mim pareceu mais interessante roubar letras de canções, e buscar esperança nas palavras alheias, que pensar em como transformar “o tédio em melodia”. As incessantes dúvidas sobre o que viria ocorreram meio na velocidade Twitter, tipo:  se é já foi, e se não viu, já passou!
Deve ter havido em mim uma restrição mental para enxergar sob as superfícies. De todo modo, alguns dos artigos que escrevi para os blogs achei por bem colocar aqui, como o do livro do Chico Buarque e do filme da Petra Costa, que foi pro Oscar (oh, yes!). Uma leveza diferenciada, creio.
Agora, acho que mais que os dedos, o coração me pede pra colocar em palavras o que a alma sente. Dou por mim em incessantes dúvidas e constantes mutações. Há cores e sabores. A melancolia tem um travo doce, de ingá, que escorre pelo queixo. O branco e preto se cercam de cinza pra mostrar que toda certeza é vã. Mas eu quero enxergar as cores todas lá na frente, como um arco íris que a gente só consegue ver quando suspira, senão a retina repele.
No tempo parado, os dias foram pontuados de um sentimento de preguiça, sem ambição ou estímulo, se alongado como um gato que se estica em um parapeito. Andei vendo filmes que todos amaram menos eu, e lido sobre livros que desfilam por mim nas prateleiras das livrarias, mas não lhes dou morada. Um estranho começo de percepções foi esse 2020. 
Estive no Rio por uns dias. Aquele lugar que sempre me será fascinante, de pessoas intensas e únicas em sua assertividade incerta, cidade cada dia mais cheia de falhas e desastres, que surpreendentemente me invade por enormes ondas de encantamento, nas rodas de samba e nos afetos guardados, uma energia pulsante. Um verão de alternância, que quase sempre fez sol.
Quanto mais me mesclo ao povo daquele lugar, mais aprendo e me surpreendo com as artes da sobrevivência. Um dia espero saber o bastante pra mim e pra quem mais precisar que eu ensine. Por enquanto, vou sentindo os cheiros da feira, a brisa do mar e os acordes do bandolim nas rodas de choro.
Mas...
Tudo isso foi em janeiro. Depois que aterrissei na cidade dos Três Poderes, muito ou quase nada se passou. Sim, a ótica é difícil mesmo. O parlamento, com suas pautas incoerentes, já anda a todo vapor, o Executivo desgovernando pelo Twitter, dirigentes proferindo publicamente toda sorte de preconceitos e bizarrices para plateias atônitas, e o Judiciário decidindo tudo por todos: o que vale e o que não vale, o que é lei e o que não é.
Vem eleições por aí. Por aí nos lugares outros, não na capital federal. Aqui ficaremos na observação.
Se lamento? Não mesmo!
A pestilência de 2018 ainda me dói nas vísceras. Não será ruim ficar ainda um pouco mais de tempo longe da disputa fétida em que os militantes do ódio transformaram a disputa democrática.
E antes que me desvie de vez, o post foi apenas pra dizer que quero retomar a escrita do blog. 
O ritmo vai depender de coisas várias, mas a vontade está posta.

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