sábado, 15 de fevereiro de 2020

A VERTIGEM DA DEMOCRACIA

(publicado originalmente em julho de 2019:
https://www.brasildefato.com.br/2019/07/24/a-vertigem-da-democracia)



Três dias antes do turbilhão detonado pelas revelações do portal "The Intercept Brasil", Petra Costa lançou seu filme “Democracia em Vertigem” que narra, justamente, os processos que conduziram o ex-presidente Lula à prisão. Para quem, como eu, viveu grande parte das cenas por dentro, com uma lente de aumento indesejada, assistir o documentário é um reviver emocional muito forte. A linha narrativa da diretora nos guia, com um fio invisível e sem que tenha sabido disso, às divulgações de Glenn Greenwald e as conclusões de como homens usaram o sistema de Justiça para concretizar seus interesses políticos espúrios.
O filme não tem um final, estamos no meio dele, em uma teia que bem poderia ser relegada à ficção, tamanha sua trama maléfica. E nos induz às lágrimas, de dor ou de raiva, diante da inexorável realidade que, mesmo percebendo, não fomos capazes de alterar.
Do ponto onde enxergo o mundo e sinto o ritmo da vida, estamos em uma encruzilhada como sociedade brasileira. Em menos de sete meses – prazo de uma gestação prematura - o novo governo já fez uma quantidade tão grande de estragos que é difícil mensurar. Muitos eventos se deram na velocidade twitter: enquanto se pensava a respeito, já foi. As reações são de correr atrás para buscar, dentro do próprio sistema, minimizar impactos. Isso quando é possível fazê-lo. As aberrações na área da cultura, da educação e do meio ambiente são irracionais. Momentos há em que o esforço para acompanhar os atos oficiais de desmontes se equipara à circunstância de alguém que se afoga, em luta para voltar a respirar a cada vez que afunda. 
Como cidadãos de nosso lindo país, o que temos, afinal, para o futuro? Uma noção de realidade relegada pelo contemporâneo e confuso jogo de poder, que buscamos preencher com esperanças de promessas a alcançar? O temor de que nossa reação nos traga, em resposta, o recrudescimento e fechamento das instituições é um espectro que nos ronda, assumido por uns, negado por outros, mas presente no imaginário coletivo.
Para quem tem a ousadia de ser progressista e não tem interesses escusos, nosso fazer acontecer no Brasil de Bolsonaro mostra-se uma busca que vai muito além de suplantar e impedir os retrocessos sociais, trabalhistas, de justiça e defesa de direitos, postos em desbaratada carreira ladeira abaixo. Em um cenário em que a violência, estatal e privada, é estimulada nos discursos, nos atos e em projetos de lei; em que o presidente e seus ministros explicitam toda sorte de impropérios, estupidezes e ignorâncias sobre minorias, sobre a ciência e as conquistas civilizatórias, e que o sistema de justiça é usado como arma de perseguição política, é preciso repensar fórmulas de reconexão com o que toca as pessoas além do imediatismo. 
Nesse cenário, nosso agir é operado com quase nada posto à mesa das virtudes. para cortar o devastador cotidiano e criar novos paradigmas. Os mecanismos dados e os inimigos a enfrentar nessa caminhada não são nada simples, nada facilitadores. O jogo é incivilizado, acobertado por artifícios que o fazem parecer irrepreensível, por jargões como “combate à corrupção”, “enxugamento da máquina pública”. O populismo de extrema direita, em sua estratégia de ocupação de poder, trabalha para destruir sistematicamente a memória de conquistas históricas, camuflando-as para desconstrui-las.
Sob a batuta de um governo com características profundamente autoritárias, homens de dispendiosos ternos e gravatas ditam ordens de seus escritórios, em largas avenidas do país, em nome do invisível mercado, para colocar em marcha as reformas que lhes interessa. Homens de adulterados discursos, em um Congresso Nacional com parentes militares e fundamentalistas, viciado e contaminado por práticas espúrias, aprovam as normas para colocar o trem do retrocesso nos trilhos e percorrer o caminho de volta ao passado. Do outro lado da mesma praça, homens de toga decidem quem participa do jogo, de que forma e em que posição, quem é expulso e quem é empoderado ou intocável; decidem o que segue e o que para. Para lembrar que houve futebol domingo, são os “donos da bola”. 
Nesse jogo em que impera toda sorte de práticas altamente questionáveis, antidemocráticas, anti-humanistas ou, para persistir na metáfora, antidesportistas, tentamos não ser apenas torcida, mas também influenciar nos resultados. E o desafio principia por nossa capacidade de não nos acostumarmos, rechaçar o método que nos impõe normalizar abusos como regras, pressionar para que a Justiça não seja o pão servido na mesa de alguns, que liberdade e Constituição não sejam apenas conceitos vagos e frágeis, usados falsa ou superficialmente em espaços onde a democracia não seja, de fato, uma ideia perseguida. Ou pior, adotadas como máscaras de realidade de poder de uns sobre muitos. É preciso ressignificar as palavras.
A vertigem que nos cerca os dias não pode nos impelir ao medo, porque coragem e solidariedade são os primeiros grandes sintomas de resistência ao domínio consentido. Ao reproduzir, como muitos, a ideia de que travamos uma luta entre civilização e barbárie, não podemos traduzir em rejeição pela esperança, ou seremos consumidos pela engrenagem e nos adaptaremos, fatalmente, à nova realidade.
Se o futuro de hoje se nos apresenta uma distopia, é preciso que nosso presente seja movido para construí-lo para muito além do patamar simbólico e imaginário que pontua Petra Costa, ao fazer analogia de sua idade com a da democracia brasileira. O desafio do momento atual é reinventar, ou descobrir de fato, novos mecanismos de luta além de todos os ganhos e perdas. É nossa teimosia, mesmo em terra arrasada, que alimenta o novo, que há de vir. 
No campo minado de desfechos incertos, teimemos.

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