terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

SINAPSE



Ultimamente ando prestando atenção a termos da Biologia.  Provavelmente influenciada pelo filme do Bong Joon-Ho.
Tenho biólogos na família, mas minha compreensão de algumas coisas é do tempo da escola, o que me leva recorrentemente ao “professor Google” para esclarecer o que me apoquenta. 
E justamente por falar em Parasita, a postagem da Janaina Paschoal no Twitter se derramando em elogios ao filme, recomendando a todos, me fez pensar em sinapse.

A Biologia explica que se trata da “região de proximidade entre a extremidade de um neurônio e uma célula vizinha, onde os impulsos nervosos são transformados em impulsos químicos em decorrência da presença de mediadores químicos”.

No uso popular a palavra aparece para indicar que a pessoa tem que saber ligar as pontas de duas equações, o famoso “lhé com cré”. Ocorre que, conhecendo as posições públicas da moça, que agora decidiu que nunca foi bolsonarista (podemos pasmar?) a gente conclui facinho que Janaina Paschoal não sabe fazer sinapse. E eu bem que gostaria de saber o que diabos ela entendeu de um filme que faz uma crítica social requintada como esse.

Nesse rumo, Jana periga querer sair no carnaval da Mangueira e achar que o enredo é super bacana... 


sábado, 15 de fevereiro de 2020

Pai, afasta de mim esse “cale-se!”



Na composição dos silêncios andei achando bom calar-me sobre muitas coisas. No ano que findou escrevi muito sobre política. Havia muito barulho e quase nenhuma poesia, o que acabava motivando desafogo sobre o mundo posto: medos, dores, desatinos. Mas carecia a calmaria para olhar o mundo com paciência, mesmo que houvesse tristeza e desalento.
2019 passou com muitos estragos. Foi tanta destruição que a mim pareceu mais interessante roubar letras de canções, e buscar esperança nas palavras alheias, que pensar em como transformar “o tédio em melodia”. As incessantes dúvidas sobre o que viria ocorreram meio na velocidade Twitter, tipo:  se é já foi, e se não viu, já passou!
Deve ter havido em mim uma restrição mental para enxergar sob as superfícies. De todo modo, alguns dos artigos que escrevi para os blogs achei por bem colocar aqui, como o do livro do Chico Buarque e do filme da Petra Costa, que foi pro Oscar (oh, yes!). Uma leveza diferenciada, creio.
Agora, acho que mais que os dedos, o coração me pede pra colocar em palavras o que a alma sente. Dou por mim em incessantes dúvidas e constantes mutações. Há cores e sabores. A melancolia tem um travo doce, de ingá, que escorre pelo queixo. O branco e preto se cercam de cinza pra mostrar que toda certeza é vã. Mas eu quero enxergar as cores todas lá na frente, como um arco íris que a gente só consegue ver quando suspira, senão a retina repele.
No tempo parado, os dias foram pontuados de um sentimento de preguiça, sem ambição ou estímulo, se alongado como um gato que se estica em um parapeito. Andei vendo filmes que todos amaram menos eu, e lido sobre livros que desfilam por mim nas prateleiras das livrarias, mas não lhes dou morada. Um estranho começo de percepções foi esse 2020. 
Estive no Rio por uns dias. Aquele lugar que sempre me será fascinante, de pessoas intensas e únicas em sua assertividade incerta, cidade cada dia mais cheia de falhas e desastres, que surpreendentemente me invade por enormes ondas de encantamento, nas rodas de samba e nos afetos guardados, uma energia pulsante. Um verão de alternância, que quase sempre fez sol.
Quanto mais me mesclo ao povo daquele lugar, mais aprendo e me surpreendo com as artes da sobrevivência. Um dia espero saber o bastante pra mim e pra quem mais precisar que eu ensine. Por enquanto, vou sentindo os cheiros da feira, a brisa do mar e os acordes do bandolim nas rodas de choro.
Mas...
Tudo isso foi em janeiro. Depois que aterrissei na cidade dos Três Poderes, muito ou quase nada se passou. Sim, a ótica é difícil mesmo. O parlamento, com suas pautas incoerentes, já anda a todo vapor, o Executivo desgovernando pelo Twitter, dirigentes proferindo publicamente toda sorte de preconceitos e bizarrices para plateias atônitas, e o Judiciário decidindo tudo por todos: o que vale e o que não vale, o que é lei e o que não é.
Vem eleições por aí. Por aí nos lugares outros, não na capital federal. Aqui ficaremos na observação.
Se lamento? Não mesmo!
A pestilência de 2018 ainda me dói nas vísceras. Não será ruim ficar ainda um pouco mais de tempo longe da disputa fétida em que os militantes do ódio transformaram a disputa democrática.
E antes que me desvie de vez, o post foi apenas pra dizer que quero retomar a escrita do blog. 
O ritmo vai depender de coisas várias, mas a vontade está posta.

A VERTIGEM DA DEMOCRACIA

(publicado originalmente em julho de 2019:
https://www.brasildefato.com.br/2019/07/24/a-vertigem-da-democracia)



Três dias antes do turbilhão detonado pelas revelações do portal "The Intercept Brasil", Petra Costa lançou seu filme “Democracia em Vertigem” que narra, justamente, os processos que conduziram o ex-presidente Lula à prisão. Para quem, como eu, viveu grande parte das cenas por dentro, com uma lente de aumento indesejada, assistir o documentário é um reviver emocional muito forte. A linha narrativa da diretora nos guia, com um fio invisível e sem que tenha sabido disso, às divulgações de Glenn Greenwald e as conclusões de como homens usaram o sistema de Justiça para concretizar seus interesses políticos espúrios.
O filme não tem um final, estamos no meio dele, em uma teia que bem poderia ser relegada à ficção, tamanha sua trama maléfica. E nos induz às lágrimas, de dor ou de raiva, diante da inexorável realidade que, mesmo percebendo, não fomos capazes de alterar.
Do ponto onde enxergo o mundo e sinto o ritmo da vida, estamos em uma encruzilhada como sociedade brasileira. Em menos de sete meses – prazo de uma gestação prematura - o novo governo já fez uma quantidade tão grande de estragos que é difícil mensurar. Muitos eventos se deram na velocidade twitter: enquanto se pensava a respeito, já foi. As reações são de correr atrás para buscar, dentro do próprio sistema, minimizar impactos. Isso quando é possível fazê-lo. As aberrações na área da cultura, da educação e do meio ambiente são irracionais. Momentos há em que o esforço para acompanhar os atos oficiais de desmontes se equipara à circunstância de alguém que se afoga, em luta para voltar a respirar a cada vez que afunda. 
Como cidadãos de nosso lindo país, o que temos, afinal, para o futuro? Uma noção de realidade relegada pelo contemporâneo e confuso jogo de poder, que buscamos preencher com esperanças de promessas a alcançar? O temor de que nossa reação nos traga, em resposta, o recrudescimento e fechamento das instituições é um espectro que nos ronda, assumido por uns, negado por outros, mas presente no imaginário coletivo.
Para quem tem a ousadia de ser progressista e não tem interesses escusos, nosso fazer acontecer no Brasil de Bolsonaro mostra-se uma busca que vai muito além de suplantar e impedir os retrocessos sociais, trabalhistas, de justiça e defesa de direitos, postos em desbaratada carreira ladeira abaixo. Em um cenário em que a violência, estatal e privada, é estimulada nos discursos, nos atos e em projetos de lei; em que o presidente e seus ministros explicitam toda sorte de impropérios, estupidezes e ignorâncias sobre minorias, sobre a ciência e as conquistas civilizatórias, e que o sistema de justiça é usado como arma de perseguição política, é preciso repensar fórmulas de reconexão com o que toca as pessoas além do imediatismo. 
Nesse cenário, nosso agir é operado com quase nada posto à mesa das virtudes. para cortar o devastador cotidiano e criar novos paradigmas. Os mecanismos dados e os inimigos a enfrentar nessa caminhada não são nada simples, nada facilitadores. O jogo é incivilizado, acobertado por artifícios que o fazem parecer irrepreensível, por jargões como “combate à corrupção”, “enxugamento da máquina pública”. O populismo de extrema direita, em sua estratégia de ocupação de poder, trabalha para destruir sistematicamente a memória de conquistas históricas, camuflando-as para desconstrui-las.
Sob a batuta de um governo com características profundamente autoritárias, homens de dispendiosos ternos e gravatas ditam ordens de seus escritórios, em largas avenidas do país, em nome do invisível mercado, para colocar em marcha as reformas que lhes interessa. Homens de adulterados discursos, em um Congresso Nacional com parentes militares e fundamentalistas, viciado e contaminado por práticas espúrias, aprovam as normas para colocar o trem do retrocesso nos trilhos e percorrer o caminho de volta ao passado. Do outro lado da mesma praça, homens de toga decidem quem participa do jogo, de que forma e em que posição, quem é expulso e quem é empoderado ou intocável; decidem o que segue e o que para. Para lembrar que houve futebol domingo, são os “donos da bola”. 
Nesse jogo em que impera toda sorte de práticas altamente questionáveis, antidemocráticas, anti-humanistas ou, para persistir na metáfora, antidesportistas, tentamos não ser apenas torcida, mas também influenciar nos resultados. E o desafio principia por nossa capacidade de não nos acostumarmos, rechaçar o método que nos impõe normalizar abusos como regras, pressionar para que a Justiça não seja o pão servido na mesa de alguns, que liberdade e Constituição não sejam apenas conceitos vagos e frágeis, usados falsa ou superficialmente em espaços onde a democracia não seja, de fato, uma ideia perseguida. Ou pior, adotadas como máscaras de realidade de poder de uns sobre muitos. É preciso ressignificar as palavras.
A vertigem que nos cerca os dias não pode nos impelir ao medo, porque coragem e solidariedade são os primeiros grandes sintomas de resistência ao domínio consentido. Ao reproduzir, como muitos, a ideia de que travamos uma luta entre civilização e barbárie, não podemos traduzir em rejeição pela esperança, ou seremos consumidos pela engrenagem e nos adaptaremos, fatalmente, à nova realidade.
Se o futuro de hoje se nos apresenta uma distopia, é preciso que nosso presente seja movido para construí-lo para muito além do patamar simbólico e imaginário que pontua Petra Costa, ao fazer analogia de sua idade com a da democracia brasileira. O desafio do momento atual é reinventar, ou descobrir de fato, novos mecanismos de luta além de todos os ganhos e perdas. É nossa teimosia, mesmo em terra arrasada, que alimenta o novo, que há de vir. 
No campo minado de desfechos incertos, teimemos.

ESSA GENTE


(o texto foi escrito há alguns meses e publicado em alguns sítios)



Quem me conhece bem, ou até mais ou menos, já sabe que gosto de ler quase tanto quanto gosto de dançar, de samba e cinema, e mais até que de vinho, sorvete e açaí, o que não é pouco. Mas não sei dizer que tipo de leitora sou, nessas definições-padrão que rolam por aí.
Há livros que me consomem de tal forma que terminar de lê-los vira um suplício: desmarco compromissos, fico ansiosa em voltar para casa e ler a próxima página, e perco noites inteiras de sono. Ou, pior, cometo a insanidade ou indelicadeza de leva-los a lugares onde absolutamente não deveria, apenas para poder adiantar mais um pouco a leitura. Isso é o mais comum. Há outros que leio aos poucos, sorvendo as letras, quase lamentando que cheguem ao fim. Não há muita explicação para a ausência de ansiedade, já que pode acontecer com um romance ou uma análise técnico-jurídica sobre um tema qualquer. O novo livro do Chico Buarque esteve nessa segunda possibilidade. Ganhei da Carol há uns bons dias, quando chegou às livrarias, e fui lendo no ritmo do protagonista: em apontamentos diários, ou quase. Acabei.
Eu li os livros anteriores do Chico. Todos eles. Os críticos literários costumam aproximar ou afastar as similitudes das narrativas, dos contextos e das formas, o que eu particularmente acho chato. Não é que dá para esquecer os outros romances e suas abordagens, mas nunca penso neles ao ler um livro novo. De autor algum. Exceto quando o próprio assume a continuidade de eventos de um para outro, como Saramago em seus ensaios sobre a cegueira e a lucidez.
E já que não sou crítica literária, ainda bem, e não tenho qualquer compromisso de coerência e conhecimento profundo de conceitos adotados pelos intelectuais dessa área, li “Essa Gente” como um texto único, que não se relaciona com outros, exceto por ser obra da mesma mente. E escrevo sobre ele a partir de minha percepção leiga, simples e desafetada, já que, definitivamente, não vou influenciar ninguém, positiva ou negativamente, a ler o livro. Nem teria tamanha pretensão. Paradoxalmente, talvez pela história se passar no Rio de Janeiro, no bairro onde Chico Buarque mora, e o protagonista ser um escritor, pareceu quase impossível não tentar buscar semelhanças entre criador e criatura, autor e personagem, o que perdura em mim até o final, e de volta ao meio. Ao mesmo tempo, e complementarmente, várias passagens me recordaram naturalmente trechos de canções buarqueanas, que talvez não tenham propositadamente qualquer vínculo, ou nunca o saberei.
A narrativa de diário, que dá de início alguns saltos para trás e volta ao presente, para construir a linha discursiva da novela do protagonista, ocorre dentro dos três últimos anos da história do Brasil, esses mesmos que costumamos abordar em nossas análises de conjuntura, como uma quebra de paradigma. 2016, o ano em que vivemos um impeachment – e a mim é impossível esquecer que o vivi por dentro – e a democracia entrou em uma espécie de “pausa”, como já fora dito por um ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, é quando começa a história de Manuel Duarte, encontrado morto em seu apartamento no Leblon, no dia 19 de setembro último, quando o Brasil se encontra sob um governo com características profundamente conservadoras e ditatoriais.
Escrevendo sobre o Brasil atual, que caminho fácil e tentador seria para Chico assumir, como autor, uma posição maniqueísta e dual. Se assim fosse perderíamos, como leitores, sua inteligente observação de uma sociedade complexa e conflituosa, a partir de fragmentos inteiros de realidade que nos apresenta. E que equívoco seria deduzir que, por não ter a obviedade de um produto de consumo direto e fácil, como um artigo que pretendesse fazer crítica social, a advertência não estaria lá. De fato, no livro, as personagens funcionam como fios condutores de amostragem das fraturas de nosso tecido social, como na evidência do bullying escolar, no espancamento gratuito desferido por um “cidadão de bem” contra um homem em situação de rua ou nos conflitos de indivíduos ou coletivos com a polícia, que sempre terminam em morte, além das diversas menções a eventos reais, em um exercício subjetivo de provocação e aproximação da ficção aos fatos ocorridos, como os 80 tiros dados pela polícia a um carro matando um músico negro, mastigados pelo cachorro fictício ao comer o jornal.
Chico assume o risco ao escrever em um formato diferente na linguagem, que tem como resultado uma leitura fluida. A trajetória construída, com a cronologia que vai sendo organizada, tem o amparo de outras personagens que por alguns poucos momentos se apropriam da narrativa, como as duas ex-mulheres de Duarte, por meio de suas cartas, ou uma vizinha que intenta retirá-lo do prédio. Uma criatura arrogante que sintomaticamente é uma juíza, em um país em que nada parece acontecer sem a participação de juízes.
Voltando ao ponto de intersecção, uma frase de Chico Buarque sobre o Rio de Janeiro, que sempre me vem quando contemplo a cidade de um ponto alto, e que para mim define de forma definitiva sua assombrosa beleza, em sua contradição inexorável, é da música Carioca: “o poente na espinha das tuas montanhas quase arromba a retina de quem vê...”. Quando Duarte diz, após narrar mazelas urbanas: “estarei condenado a amar e cantar a cidade onde nasci” há um entrelaçamento definitivo entre os dois. E foi para as exatas páginas 48 e 49, em que o diário registra 20 de fevereiro de 2019, que voltei quando cheguei ao fim e descobri que o romance escrito por Duarte sumira misteriosamente do computador após sua morte. E li novamente, após aquela sequência de declaração de amor ao Rio, “meu livro, meu livro, meu livro” com a certeza, que nunca terei de fato, que o romance escrito por Manuel Duarte durante sua epopeia, foi descaradamente roubado por Chico Buarque, e se chama “Essa Gente”.