(o texto foi escrito há alguns meses e publicado em alguns sítios)
Quem
me conhece bem, ou até mais ou menos, já sabe que gosto de ler quase tanto
quanto gosto de dançar, de samba e cinema, e mais até que de vinho, sorvete e
açaí, o que não é pouco. Mas não sei dizer que tipo de leitora sou, nessas
definições-padrão que rolam por aí.
Há
livros que me consomem de tal forma que terminar de lê-los vira um suplício:
desmarco compromissos, fico ansiosa em voltar para casa e ler a próxima página,
e perco noites inteiras de sono. Ou, pior, cometo a insanidade ou indelicadeza
de leva-los a lugares onde absolutamente não deveria, apenas para poder
adiantar mais um pouco a leitura. Isso é o mais comum. Há outros que leio aos
poucos, sorvendo as letras, quase lamentando que cheguem ao fim. Não há muita
explicação para a ausência de ansiedade, já que pode acontecer com um romance
ou uma análise técnico-jurídica sobre um tema qualquer. O novo livro do Chico
Buarque esteve nessa segunda possibilidade. Ganhei da Carol há uns bons dias,
quando chegou às livrarias, e fui lendo no ritmo do protagonista: em
apontamentos diários, ou quase. Acabei.
Eu
li os livros anteriores do Chico. Todos eles. Os críticos literários costumam aproximar
ou afastar as similitudes das narrativas, dos contextos e das formas, o que eu
particularmente acho chato. Não é que dá para esquecer os outros romances e
suas abordagens, mas nunca penso neles ao ler um livro novo. De autor algum. Exceto
quando o próprio assume a continuidade de eventos de um para outro, como
Saramago em seus ensaios sobre a cegueira e a lucidez.
E
já que não sou crítica literária, ainda bem, e não tenho qualquer compromisso de
coerência e conhecimento profundo de conceitos adotados pelos intelectuais
dessa área, li “Essa Gente” como um texto único, que não se relaciona com
outros, exceto por ser obra da mesma mente. E escrevo sobre ele a partir de
minha percepção leiga, simples e desafetada, já que, definitivamente, não vou
influenciar ninguém, positiva ou negativamente, a ler o livro. Nem teria
tamanha pretensão. Paradoxalmente, talvez pela história se passar no Rio de
Janeiro, no bairro onde Chico Buarque mora, e o protagonista ser um escritor, pareceu
quase impossível não tentar buscar semelhanças entre criador e criatura, autor
e personagem, o que perdura em mim até o final, e de volta ao meio. Ao mesmo
tempo, e complementarmente, várias passagens me recordaram naturalmente trechos
de canções buarqueanas, que talvez não tenham propositadamente qualquer vínculo,
ou nunca o saberei.
A
narrativa de diário, que dá de início alguns saltos para trás e volta ao
presente, para construir a linha discursiva da novela do protagonista, ocorre
dentro dos três últimos anos da história do Brasil, esses mesmos que costumamos
abordar em nossas análises de conjuntura, como uma quebra de paradigma. 2016, o
ano em que vivemos um impeachment – e a mim é impossível esquecer que o
vivi por dentro – e a democracia entrou em uma espécie de “pausa”, como já fora
dito por um ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, é quando começa a história
de Manuel Duarte, encontrado morto em seu apartamento no Leblon, no dia 19 de
setembro último, quando o Brasil se encontra sob um governo com características
profundamente conservadoras e ditatoriais.
Escrevendo
sobre o Brasil atual, que caminho fácil e tentador seria para Chico assumir,
como autor, uma posição maniqueísta e dual. Se assim fosse perderíamos, como
leitores, sua inteligente observação de uma sociedade complexa e conflituosa, a
partir de fragmentos inteiros de realidade que nos apresenta. E que equívoco
seria deduzir que, por não ter a obviedade de um produto de consumo direto e
fácil, como um artigo que pretendesse fazer crítica social, a advertência não
estaria lá. De fato, no livro, as personagens funcionam como fios condutores de
amostragem das fraturas de nosso tecido social, como na evidência do bullying escolar, no espancamento
gratuito desferido por um “cidadão de bem” contra um homem em situação de rua
ou nos conflitos de indivíduos ou coletivos com a polícia, que sempre terminam
em morte, além das diversas menções a eventos reais, em um exercício subjetivo
de provocação e aproximação da ficção aos fatos ocorridos, como os 80 tiros
dados pela polícia a um carro matando um músico negro, mastigados pelo cachorro
fictício ao comer o jornal.
Chico
assume o risco ao escrever em um formato diferente na linguagem, que tem como
resultado uma leitura fluida. A trajetória construída, com a cronologia que vai
sendo organizada, tem o amparo de outras personagens que por alguns poucos momentos
se apropriam da narrativa, como as duas ex-mulheres de Duarte, por meio de suas
cartas, ou uma vizinha que intenta retirá-lo do prédio. Uma
criatura arrogante que sintomaticamente é uma juíza, em um país em que nada
parece acontecer sem a participação de juízes.
Voltando
ao ponto de intersecção, uma frase de Chico Buarque sobre o Rio de Janeiro, que
sempre me vem quando contemplo a cidade de um ponto alto, e que para mim define
de forma definitiva sua assombrosa beleza, em sua contradição inexorável, é da
música Carioca: “o poente na espinha das tuas montanhas quase arromba a retina
de quem vê...”. Quando Duarte diz, após narrar mazelas urbanas: “estarei
condenado a amar e cantar a cidade onde nasci” há um entrelaçamento definitivo
entre os dois. E foi para as exatas páginas 48 e 49, em que o diário registra
20 de fevereiro de 2019, que voltei quando cheguei ao fim e descobri que o
romance escrito por Duarte sumira misteriosamente do computador após sua morte.
E li novamente, após aquela sequência de declaração de amor ao Rio, “meu livro,
meu livro, meu livro” com a certeza, que nunca terei de fato, que o romance
escrito por Manuel Duarte durante sua epopeia, foi descaradamente roubado por
Chico Buarque, e se chama “Essa Gente”.