sábado, 26 de janeiro de 2019

O TEMPO DA LAMA



Os tempos andam assim: nenhuma poesia, muito cansaço, algum enfado, ansiedade de que o tempo corra rápido para, quem sabe, haver diferença lá na frente. São tantas pautas e tantas coisas que afastam a inspiração e tornam a imaginação difícil e lenta...

Ando em uma gangorra emocional. Em tempos de governo de reacionarismo explicito e institucional, as coisas me afetam mais ou menos, a depender de como chegam, em número, velocidade e intensidade.

A nova tragédia em Minas produzida pela insensatez e ganância dos homens transforma rios em lama e nossa alma em pedra. Mais uma, mais vidas sacrificadas, mais discursos para o injustificável. Muita hipocrisia e pouca ação.
A notícia veio em paralelo à de que Jean Wyllys abandonou a vida pública e deixou o país ameaçado de morte, e de que o governo brasileiro reconhece o autoproclamado "presidente" paralelo da Venezuela. É muito!

O tempo das lamas escorrendo, quanto durará?

Quanto faltará para o fim da histeria irresponsável, dos gritos preconceituosos, dos vômitos de rancor, das pestilências da raiva? E como sairemos disso tudo? O que sobrará do desencanto? O que há depois do túnel? Por quanto tempo acumularemos sofrimentos, espantaremos os dissabores que corroem os intestinos, o fígado, os ossos e, sobremaneira, a alma?

Paradoxalmente, como se respondesse em alento, depois de dias de muito calor, deu de chover na nossa cidade com asas.
Brasília é bonita quando chove. É bonita sempre, mas nem toda cidade fica com esse cheiro molhado no ar, com o verde lavado nas árvores.
A chuva parece amansar o verão, aquieta a poeira, renova as cores do dia. O verde salta da terra em todos os tons, brilhante e travesso no mato rasteiro. Parece haver uma gratidão espalhada no ar, uma esperança de que a tormenta em breve passe, uma calma. Momentos de ilusão que fico olhando da janela e me permito sentir. Só sentir.
Hoje cedo, ainda com sol, fui a pé pra academia, ocupada com meus pensamentos, deixando a manhã esvair-se pela esquina e tentando memorizar o que tenho pra fazer na próxima semana de trabalho. Lá me vou outra vez pra São Paulo, aquela terra que sempre me será estranha. Afastei os pensamentos sobre essa agenda porque não me valia. Nada podia ser mais importante que a manhã suave pra me roubar de mim. É que minha mente às vezes se assemelha a um inquieto ratinho, necessita estar sempre roendo algo. Mesmo quando estou relaxada, fico com uma ponta de apreensão alfinetando a mente.
Ultimamente eu entro nessas demandas de trabalho pensando lá na frente. Aí fantasio que o remédio ruim pode ser uma injeção. Tem que tomar logo, porque a dorzinha da picada é rápida. Mas é justo aí que as dúvidas pululam e fazem a festa. O que haverá no futuro? Ainda existirão homens públicos que se conduzem segundo seus princípios? Ou só haverá espaço para os espertos, os vitoriosos que dominam a matéria política disseminando mentiras e ódio? Sei não! Mas me permito ter esperança. Como naquela canção do Gonzaguinha;

” fé na vida,
fé no homem,
fé no que virá,
nós podemos tudo,
nós podemos mais,
vamos lá fazer o que será”

Meu coração tem um desejo imenso de que haja um tempo-espaço para a restauração do equilíbrio alegre e da serenidade confiante. Quero sentir a chuva aliviando o ardor da caminhada, trazendo umidade, como se fora possível pressentir um tempo melhor lá adiante, de paz e pingos no telhado, calma e trabalho produtivo, poesia e navegação, liberdade e tolerância.
Recentemente fiz um amigo um tanto exotérico. E justo eu que não sou ligada nisso, me vi consultando um site que fala do I Ching e olhem o que encontrei: “favorável atravessar a grande água”.
Ora......



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