Os
tempos andam assim: nenhuma poesia, muito cansaço, algum enfado, ansiedade de
que o tempo corra rápido para, quem sabe, haver diferença lá na frente. São
tantas pautas e tantas coisas que afastam a inspiração e tornam a imaginação
difícil e lenta...
Ando
em uma gangorra emocional. Em tempos de governo de reacionarismo explicito e
institucional, as coisas me afetam mais ou menos, a depender de como chegam, em
número, velocidade e intensidade.
A
nova tragédia em Minas produzida pela insensatez e ganância dos homens
transforma rios em lama e nossa alma em pedra. Mais uma, mais vidas
sacrificadas, mais discursos para o injustificável. Muita hipocrisia e pouca
ação.
A
notícia veio em paralelo à de que Jean Wyllys abandonou a vida pública e deixou
o país ameaçado de morte, e de que o governo brasileiro reconhece o
autoproclamado "presidente" paralelo da Venezuela. É muito!
O
tempo das lamas escorrendo, quanto durará?
Quanto
faltará para o fim da histeria irresponsável, dos gritos preconceituosos, dos
vômitos de rancor, das pestilências da raiva? E como sairemos disso tudo? O que
sobrará do desencanto? O que há depois do túnel? Por quanto tempo acumularemos
sofrimentos, espantaremos os dissabores que corroem os intestinos, o fígado, os
ossos e, sobremaneira, a alma?
Paradoxalmente,
como se respondesse em alento, depois de dias de muito calor, deu de chover na
nossa cidade com asas.
Brasília
é bonita quando chove. É bonita sempre, mas nem toda cidade fica com esse
cheiro molhado no ar, com o verde lavado nas árvores.
A
chuva parece amansar o verão, aquieta a poeira, renova as cores do dia. O verde
salta da terra em todos os tons, brilhante e travesso no mato rasteiro. Parece
haver uma gratidão espalhada no ar, uma esperança de que a tormenta em breve
passe, uma calma. Momentos de ilusão que fico olhando da janela e me permito
sentir. Só sentir.
Hoje
cedo, ainda com sol, fui a pé pra academia, ocupada com meus pensamentos,
deixando a manhã esvair-se pela esquina e tentando memorizar o que tenho
pra fazer na próxima semana de trabalho. Lá me vou outra vez pra São Paulo,
aquela terra que sempre me será estranha. Afastei os pensamentos sobre essa
agenda porque não me valia. Nada podia ser mais importante que a manhã suave
pra me roubar de mim. É que minha mente às vezes se assemelha a
um inquieto ratinho, necessita estar sempre roendo algo. Mesmo quando
estou relaxada, fico com uma ponta de apreensão alfinetando a mente.
Ultimamente
eu entro nessas demandas de trabalho pensando lá na frente. Aí fantasio que o
remédio ruim pode ser uma injeção. Tem que tomar logo, porque a dorzinha da
picada é rápida. Mas é justo aí que as dúvidas pululam e fazem a festa. O que
haverá no futuro? Ainda existirão homens públicos que se conduzem segundo
seus princípios? Ou só haverá espaço para os espertos, os vitoriosos que
dominam a matéria política disseminando mentiras e ódio? Sei não! Mas me permito
ter esperança. Como naquela canção do Gonzaguinha;
”
fé na vida,
fé
no homem,
fé
no que virá,
nós
podemos tudo,
nós
podemos mais,
vamos
lá fazer o que será”
Meu
coração tem um desejo imenso de que haja um tempo-espaço para a restauração do
equilíbrio alegre e da serenidade confiante. Quero sentir a chuva
aliviando o ardor da caminhada, trazendo umidade, como se fora possível
pressentir um tempo melhor lá adiante, de paz e pingos no telhado, calma e
trabalho produtivo, poesia e navegação, liberdade e tolerância.
Recentemente
fiz um amigo um tanto exotérico. E justo eu que não sou ligada nisso, me vi
consultando um site que fala do I Ching e olhem o que encontrei: “favorável
atravessar a grande água”.
Ora......

