sexta-feira, 9 de outubro de 2015

IANSÃ



Em tempos de discurso presidencial sobre a possibilidade de estocar o vento, busquei nas reminiscências que Germano, o mais amado pai de santo daAmazônia, revelou-me há certo tempo, com seus búzios, que sou filha de Iansã; segundo ele o orixá feminino da sensualidade, mãe dos ventos, dos relâmpagos e da tempestade. Gostei de ter uma “mãe” espiritual com essas qualidades. Não pretendo disparar raios por ai, bom que eu diga, mas o ar em movimento é sedutor em suas diversas facetas, desde a brisa quase imperceptível até potentes vendavais, daqueles que embaraçam os cabelos.

Minhas tempestades internas - essas cuja fúria não consigo aplacar nem desacatar - estão em escala maior. É quando vejo que não há como domar minha sanha, essa espécie de teimosa aranha, tão impactante quanto desastrosa. Pode ser que não haja mesmo nada a fazer, senão aguardar a passagem do sentimento irresoluto, cuidar mais das palavras, para que seu desajuízo não cause ainda mais prejuízos ao espírito.

Mas nem silenciar eu posso, porque há pensamentos gritando seus temores e suas dores. São tempos de fúria e indiferença, em um paradoxo onde não me encaixo. Talvez deva ficar quietinha, pedir à minha mãe Iansã para controlar melhor minha tormenta. Vou então desgrenhar os cabelos e depois prendê-los com um forte elástico, para poder enfrentar nova ventania.

Ai, quando o vento der a volta na copa das árvores, jogarei nele invisíveis sementes. As que não se dissiparem darão origem a mais tolerância e leveza, como nos dias de minha infância ensolarada, no grande quintal da minha casa, em que o grande sopro varria as folhas caídas, e meus irmãos empinavam pipas sob o azul celestial.
Terei diante de mim, quem sabe, a luz revelada sem agressão na retina, como quando vi as pinceladas realmente impressionistas de Monet ao vivo pela primeira vez no Museu d,Orsay, em Paris. Ao captar o momento de luminosidade, oxalá as coisas se tornem força e mudem meu olhar, para enxergar as lampejantes transparências como qualidades não reveladas nas atitudes que me afetam, e toda a claridade de cores e afetos me surjam como sugestão de felicidade e harmonia, desveladas nas imagens.

Verei que uma leve brisa, suave como um haicai do Leminski, pode ser potencialmente mais forte que um furacão. Entenderei que, se há gente que vem é porque, de algum modo, conhece a profundidade do ato de montar uma rede para deixar descansar a alma.

6 comentários:

  1. Nossa, que texto fantástico. Que bom que você voltou. Achei que não ia mais publicar. Abraços e bem vinda de volta. Anna

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  2. Nunca vi as pinceladas do Monet, mas quando for ver lembrarei das suas palavras, moça. Lindo seu texto!!

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  4. Só conheci seu blog hoje. Impressionante como escreve bem, parece poesia.
    Adorei!!! Vou virar fã.

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    1. Oi Jorge!! Hoje curiosamente também estou passando por aqui. O blog já foi em outro portal e já foi frequente. Hoje raramente entro, raramente posto. Só quando tenho tempo. E também não divulgo, é mais pra praticar o desafogo, nem sei explicar...:) bem-vindo de todo modo!!!

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