Nos últimos tempos imagens tristes de pessoas afogadas no mar mediterrâneo percorreram o mundo, viraram capas de jornais, foram noticiadas na televisão.
Eis que uma delas era de um menininho de três anos de idade de short azul e camiseta vermelha. Seu pequeno corpo sem vida de bruços na praia de uma ilha na Grécia viralizou nas redes sociais, atraindo indignação e até mesmo curiosidade de quem, em regra, não pensa sobre o que acontece no mundo, fora de seu país, seu estado, sua cidade, seus muros.
Aparentemente descobriu-se não apenas que há uma crise civilizatória no mundo com sua particularidade européia de nefasta política de imigração, mas também que ela causa a morte de pessoas de todas as idades.
Os dados divulgados pela ONU informam que cerca de 2,5 mil imigrantes se afogaram neste ano de 2015 vítimas dos muitos barcos superlotados que tentam chegar à costa da Itália e da Grécia. É um fluxo de desespero e caminho para a tragédia.
A brutalidade da imagem de uma criança morta tem um efeito negativo imediato sobre os indivíduos. Além de tristeza, se a causa não é natural, gera indignação e revolta. Muitos choram, muitos xingam.
Difícil é supor que o episódio lhes traga alguma disposição de enxergar além daquela foto para buscar seus significados mais profundos. Menos ainda imagina-se a possibilidade de que confrontem seus sentidos com suas escolhas e visão de mundo.
O provável é que, passados alguns dias essa será mais uma foto na lembrança no tempo sem tempo, a exemplo daquela que ganhou o prêmio Pulitzer em 1994, que retratava um abutre postado atrás de uma criança desnutrida no Sudão, ou as que mostram corpos de crianças tiradas de escombros de escolas ou casas na guerra insana entre Israel e o Hamas. Porque fácil é deixar passar o momento da comoção para então sair imune de um acontecimento geograficamente distante e com o qual não temos nenhuma relação direta e, portanto, "nada a ver com isso".
Não temos mesmo?
O fio invisível que tece o mundo e a forma como nos portamos e decidimos nele viver - que inclui encarar as realidades todas postas - requer, no mínimo, enxergar que há sempre um menino morto na praia ou na favela, afogado, de fome ou, se vivo, nu acorrentado a um poste, espancado, abandonado nas ruas, preso. Impele-nos a presumir que a insensatez e a insensibilidade são irmãs gêmeas quando se trata de enxergar políticas públicas de segurança e migração, proteção e direitos humanos, onde nacionalidade vira um conceito de exclusão e seletividade tanto quanto o da Lei e Ordem.
Leio com espanto que muitos indignados nas redes sociais com as mortes no mediterrâneo sejam, em momentos outros, os mesmos que zombam dos direitos humanos, taxando-os de direitos de bandidos, que pedem a pena de morte e pugnam pela diminuição da maioridade penal.
Parecem não entender que na teia que se forma há uma definição de humanidade que é única em todo o mundo, aquela segundo a qual só é possível compreender o ser humano como portador de direitos que não lhes podem ser retirados, aqueles que transcendem fronteiras, que nos obrigam como atores sociais a nos expressarmos em termos de um discurso que busque responder quem somos ou quem queremos ser a partir do reconhecimento de nosso igual. Desse modo nos posicionamos sobre a forma como as nações e o mundo são construídos e sobre qual o lugar das conjunturas políticas diante da necessidade de aceitação e acolhimento de pessoas fugindo das tragédias dentro de determinado território.
A pesquisadora Elisabeth Vallet, da Universidade de Quebec denuncia que no ano da queda do Muro de Berlim, em 1989, havia 16 muros defendendo as fronteiras do mundo. Existem agora 65, concluídos ou prestes a sê-lo. O dado torna evidente que a famosa globalização não possui o componente humanitário, representa interesses puramente econômicos.
O menino morto na praia, qual os meninos do Brasil que se quer punir com a prisão, simbolizava "uma ameaça" aos Estados nacionais que se recusaram a recebê-lo com sua família. Eram imigrantes ilegais e essa era a senha para a prática de intolerância ou o menosprezo de sua condição.
As políticas migratórias restritivas provocam a exclusão social, cerceando os direitos de cidadãos de se locomoverem sob justificativas de segurança nacional, combate ao terrorismo e outros discursos de igual natureza.
Eis porque se assemelham, em percepção e gravidade, ao que ocorre dentro do sistema de justiça interno do Brasil. Eis porque nossa justa irresignação, ao invés de efêmera, deveria se transmutar em elaboração de uma postura que não seja contemplativa diante de sofrimentos, de dores, de exclusões, de perdas e violências de toda ordem, diante das mortes de todos os menininhos em nossas praias, esquinas, ruelas, morros... Diante de nós.

Texto lindo e triste.
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