terça-feira, 29 de setembro de 2015

Caíram gotas de chuva na cidade com asas. Não que as tenha visto, fechada no subterrâneo mundo da realpolitik brasileira, às voltas com escritas e delongas. Eu as percebi pelo cheiro emanado do jardim que fica ao lado da sala. Quando sai já era noite. Só então pude decifrar que não foram tímidas, beijaram pra valer o solo e deixaram um frescor de inverno em plena segunda primaveril de secura ímpar. Não sei onde foi parar o sol que brilhava quando entrei no prédio pra trabalhar. Talvez tenha se ressentido de minha chateação por ele estar lá enquanto eu não podia desfrutá-lo.
Em casa vejo que o ipê roxo da janela não só deflorou mas desfolhou. Tá lá assim, quieto, só galhos. Não há vento que o mova. Silencioso, meio fúnebre, como a esperar que lhe devolvam as vestes.
Mas há um cheiro úmido no ar e, de repente, o silêncio assemelha-se a uma silenciosa prece dos seres vivos pela bem-vinda água. Sim, há beleza na quietude.

E eu, que não resisto aos encantos da natureza, debruço-me na janela, observo e me deixo ficar suspensa nos mundos dos jardins dos canteiros das ruas de Brasília.

2 comentários:

  1. Como é fantástico te ler... Vivia entrando no outro blog sem acreditar que você tinha parado.
    nunca pare de escrever, esse dom é seu, mulher!

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  2. Que texto belo!!!! Brasilia fica mais bonita sob seu olhar.

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