sexta-feira, 18 de junho de 2010

Adeus ao último mosqueteiro





“Às despedidas sempre conveio que fossem breves.
Não é isto uma ária de ópera para lhe meter agora
um interminável adio, adio.
Adeus, portanto. Até outro dia?”
(José Saramago)

Gosto daquela premissa que alguém inventou um dia 
que ao passarmos por essa vida temos que ter um filho, 
plantar uma árvore e escrever um livro, este aqui entendido como não acadêmico.
O filho eu tenho, árvores plantei várias. O livro é a ausência. E elegi durante a vida e 
minha paixão pela literatura aqueles que me faziam compor o vazio das letras que não 
gravei nas páginas.
Um desses homens, dos mais magistrais, partiu hoje.
Saramago é parte do encanto do encontro da literatura com a minha alma. E se não
escrevi um livro, os dele li todos. E em cada um encontrei formas de me deslocar, de me 
habitar em outros, de prever mundos que não existem, construir e destruir castelos, 
enxergar a cegueira e a nudez de mundos escondidos nas mentes humanas.
Ele é mestre na mais intensa arte de me questionar e alimentar o meu espírito. Diálogos e 
relatos inteiros escritos sem pontuações que me fazem contornar a superfície das 
dimensões dos inícios, pausas, meios, fins, para encontrar a sabedoria de que sempre há 
mais.
Eu o vi uma única vez, em um debate do V Forum Social Mundial em 2005, esmagada 
entre as milhares de pessoas que se acotovelavam sentadas no chão do ginásio em Porto 
Alegre para ouvi-lo.
Ele jogou um balde de água fria em nossas cabeças, questionando as idéias que 
permeavam a existência daquele encontro. Como um idealista das liberdades que 
comprou 
muitas brigas - inclusive com seu governo aceitando o exílio na Espanha - ele questionou a 
decadência de nossa moderna democracia, o poder político, a relação dos homens com o 
Estado, nossa postura diante da luta pelo direito à felicidade e a uma existência digna, 
contra as misérias e suas esperanças na humanidade.
Dizia acreditar na porção mais nobre da máxima mosqueteriana, de que é preciso que 
vivamos um por todos, todos por um, um por cada e todos juntos. Concluiu dizendo que 
vivemos em engano no plano social e que é preciso repensar tudo.
Eu o enxergava como o último dos comunistas utópicos, embora ele mesmo negasse e 
refutasse a existência de qualquer utopia.
Vou levar um tempo pra processar que não haverá um novo livro dele pra ler. Nisso 
residirá a saudade. Hoje sinto que o mundo ficou mais pobre de cultura. Nisso reside a 
tristeza.


Nenhum comentário:

Postar um comentário