Ontem à noite eu fui com o namorado ver "Querô", o filme
baseado na obra do Plínio Marcos, Uma Reportagem Maldita (Querô), de 1976.
Sabendo da sinopse e repercussão, já que a película fora
premiada nos festivais nacionais antes de entrar no circuito comercial, fui pro
cinema com alguma ideia do que veria, embora nunca tenha lido o livro do Plínio.
Conhecer o roteiro não impediu, contudo, que fosse tomada, à saída, de uma
tristeza extrema, que sempre me acomete nessas ocasiões, em que me vejo diante
de uma narrativa intensa de uma realidade observada ao meu redor.
A história do garoto, filho de uma prostituta e órfão desde
que nascera, é lugar comum social. Tão comum que nos passa ao largo muitas
vezes. As situações limites de violência, abandono e desamor da situação miserável
de Querô não impedem nossa percepção, elaborada pelo diretor, de suas dores de
menino solitário e potencialmente terno, que exala ódio pelos poros pelo mundo
que o renega. Suas tentativas de mudar seu destino amaldiçoado estão carregadas
dos emblemas do impossível. A vida que lhe é ofertada (ou sonegada?) exige um
ser humano “macho”, com poder suficiente para se impor em meio às mazelas e gritar
sua vontade de conquista.
O Alê viu uma analogia com Pixote, o filme do Babenco, nas
cenas iniciais que não consegui enxergar. Mas, é óbvio que há um
entrecruzamento das histórias. Querô é uma modalidade de Pixote e vice-versa,
crianças de quem foi tirado o direito à infância, que foram expostas e
empurradas para o desenlace mais cruel da existência, que encontram nas ruas e
no furto o mote de seus encontros com o futuro, uma janela para suas expressões.
E são vistas, sobretudo pelos homens que interligam segurança pública com punibilidade,
como “menores delinquentes”, naquele jeito muito simplório de que representam
expressão do mal a nós, pessoas “comuns e inocentes” da sociedade, em um esquecimento
cruel e grotesco de tudo que os antecede. E deixando na superfície o que há por
trás da história de cada menino, limitando a análise à sua biografia de atos
praticados de delinquência.
São os mesmos que zombam dos Direitos Humanos, chamando-os de
direitos de bandidos, que pedem a pena de morte, que pugnam pela diminuição da
maioridade penal.
Querô é, em sua essência de ser humano, a dicotomia explícita
de dor e ternura, infância e medo, ingenuidade e coragem, resistência e fome,
carisma e violência.
Não sou estraga-prazeres, então não falarei sobre o enredo. Quem
ainda não viu, vá ver.
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