segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

QUANDO CRUZO A IPIRANGA

Estou na terra da garoa outra vez. Quase me acostumando a pingar por aqui num incessante vaivém. A cidade me recebeu com seu céu carregado de nuvens cinzentas e seu tráfego moroso. Olho esse amontoado de prédios sempre a me sentir Narciso, buscando um espelho que não há. Paradoxalmente, São Paulo é uma cidade interessante, apesar de si mesma.

Os feriados de Momo em terras cariocas foram intensos, como não poderiam deixar de ser. A política tomou conta do carnaval, com escolas de samba pautando a crise do país e as redes pautando as escolas. Foram dias em que, em meio ao caos do mundo em que vivo, permiti-me a entrega à folia, para não pensar nos desatinos e dores. Afinal, ninguém vai à guerra apenas para guerrear.

O presidente usurpador recebeu uma grande homenagem em desfile na Marquês de Sapucaí, vestido de vampiro. Resolveu comemorar nas cinzas, chamando os militares para cuidar da segurança na cidade do Rio de Janeiro. As pessoas se confundem, fazem análises em todas as direções e se perguntam os limites: “teremos eleições”? “teremos um golpe militar”? As coisas chegaram a um ponto em que o absurdo causa dúvidas, não mais espanto. Ninguém mais sabe qual a cerca que separa o que é provável ou possível do que é inadmissível ou irrealizável nas acomodações e mudanças na ordem democrática brasileira.

Há uma hiperfragmentação da sociedade, difícil de traduzir em linguagem comum. A palavra da vez é incerteza. Há muitos becos, mas não vislumbramos as saídas. Manter a esperança sem alimentar ilusões parece o desafio em um tempo ineficaz, de destruição e angústias.

Os acontecimentos no mundo da realpolitik no Brasil pós-golpe parlamentar são tão disparatados, que parece haver uma máquina de nonsense ligada trabalhando dia e noite. Pedro, meu sobrinho, me disse do alto dos seus recém-completados 15 anos que “Fora Temer” não significa mais nada, é apenas “modinha”. É verdade! Virou uma repetição por hábito, um jargão, uma torcida pelo improvável. E se virou marchinha de carnaval, ele responde: “daqui não saio, daqui ninguém me tira”. E abusou de propaganda pra fazer a reforma da previdência. Esteve nos programas de auditório e agora nas capas de revistas. Quem nos dirá quanto está nos custando essa brincadeira?
Afora a assertiva do Pedrinho beirar a bizarrice, demonstra que a macrotendência é a absorção e naturalização do que é disruptivo e desestruturante. É a afirmação de que nem a grande incapacidade do governo que se adornou ilegitimamente do poder de construir qualquer popularidade e aceitação social, e nem todas as suas mazelas afetam sua sustentação no poder e o desenho de Estado que está sendo empurrado goela abaixo, com a desconstrução de direitos, plenamente em curso, a fragmentação do país como nação, a desnacionalização e a entrega de nossas riquezas.

Acontece que há resistência. E foi ela que me trouxe aqui. Mentes e corações dispostos a disputar o futuro, que nunca nos fora tão incerto quanto agora. Lutar para forjar espaços nessa sociedade louca, porque eles não nos vêm de graça. Reunir coisas que se perderam pelo caminho, inclusive pedaços de alma. E não perder a poesia.  
É quando lembro da velha canção que o Gonzaguinha deixou:

muito que andar por aí

muito que viver por aí

muito que aprender por ai

muito que aprontar por ai


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