Estou
na terra da garoa outra vez. Quase me acostumando a pingar por aqui num incessante
vaivém. A cidade me recebeu com seu céu carregado de nuvens cinzentas e seu
tráfego moroso. Olho esse amontoado de prédios sempre a me sentir Narciso,
buscando um espelho que não há. Paradoxalmente, São Paulo é uma cidade
interessante, apesar de si mesma.
Os
feriados de Momo em terras cariocas foram intensos, como não poderiam deixar de
ser. A política tomou conta do carnaval, com escolas de samba pautando a crise
do país e as redes pautando as escolas. Foram dias em que, em meio ao caos do mundo
em que vivo, permiti-me a entrega à folia, para não pensar nos desatinos e
dores. Afinal, ninguém vai à guerra apenas para guerrear.
O
presidente usurpador recebeu uma grande homenagem em desfile na Marquês de
Sapucaí, vestido de vampiro. Resolveu comemorar nas cinzas, chamando os
militares para cuidar da segurança na cidade do Rio de Janeiro. As pessoas se
confundem, fazem análises em todas as direções e se perguntam os limites: “teremos
eleições”? “teremos um golpe militar”? As coisas chegaram a um ponto em que o
absurdo causa dúvidas, não mais espanto. Ninguém mais sabe qual a cerca que
separa o que é provável ou possível do que é inadmissível ou irrealizável nas
acomodações e mudanças na ordem democrática brasileira.
Há
uma hiperfragmentação da sociedade, difícil de traduzir em linguagem comum. A
palavra da vez é incerteza. Há muitos becos, mas não vislumbramos as saídas.
Manter a esperança sem alimentar ilusões parece o desafio em um tempo ineficaz,
de destruição e angústias.
Os
acontecimentos no mundo da realpolitik no Brasil pós-golpe parlamentar são tão disparatados,
que parece haver uma máquina de nonsense ligada trabalhando dia e noite. Pedro,
meu sobrinho, me disse do alto dos seus recém-completados 15 anos que “Fora
Temer” não significa mais nada, é apenas “modinha”. É verdade! Virou uma
repetição por hábito, um jargão, uma torcida pelo improvável. E se virou marchinha
de carnaval, ele responde: “daqui não saio, daqui ninguém me tira”. E abusou de
propaganda pra fazer a reforma da previdência. Esteve nos programas de
auditório e agora nas capas de revistas. Quem nos dirá quanto está nos custando
essa brincadeira?
Afora
a assertiva do Pedrinho beirar a bizarrice, demonstra que a macrotendência é a
absorção e naturalização do que é disruptivo e desestruturante. É a afirmação de
que nem a grande incapacidade do governo que se adornou ilegitimamente do poder
de construir qualquer popularidade e aceitação social, e nem todas as suas
mazelas afetam sua sustentação no poder e o desenho de Estado que está sendo empurrado
goela abaixo, com a desconstrução de direitos, plenamente em curso, a fragmentação
do país como nação, a desnacionalização e a entrega de nossas riquezas.
Acontece
que há resistência. E foi ela que me
trouxe aqui. Mentes e corações dispostos a disputar o futuro, que nunca nos
fora tão incerto quanto agora. Lutar para forjar espaços nessa sociedade louca,
porque eles não nos vêm de graça. Reunir coisas que se perderam pelo caminho,
inclusive pedaços de alma. E não perder a poesia.
É quando lembro da velha canção que o Gonzaguinha
deixou:
muito que andar por aí
muito que viver por aí
muito que aprender por ai
muito que aprontar por ai

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