A
fala de Ana Júlia Ribeiro, a estudante paranaense, que me comoveu profundamente
não foi a que viralizou nas redes. Aliás, não foi filmada nem gravada em áudio,
não foi dita em audiência pública nem à imprensa.
Responsável
por sua estada em Brasília nos dias 30 e 31 de outubro, quando veio para a
audiência pública na Comissão de Direitos Humanos do Senado, a levei, a pedido
dela mesma, em escolas ocupadas aqui no Distrito Federal. Descobri, logo ao
primeiro contato, que Ana Júlia não é um clichê, não é um produto de mídia forjado
por um discurso que deu certo, não tem presunção de ser líder, nem a arrogância
de possuir as respostas.
Nas
escolas que visitamos ela criou, como era esperado, uma espécie de catarse
coletiva. Legítima e legitimada pela força e impacto que seu testemunho
alcançou, arrancou lágrimas e gritos das
meninas e meninos. Entre surpresa e comovida, conversou com todos sobre a
coerência do movimento que desencadearam. E foi difícil tirá-la de lá, tamanha
a comoção que sua presença provocou.
Temerosa
do uso de sua imagem e sabedora dos riscos que a superexposição causa a si
mesma e à sua família, Ana somente parecia completamente à vontade junto aos
outros estudantes. É quando me forçava a lembrar que ela é uma adolescente como
outra qualquer, e adultos são estranhos em alguns nichos. No universo de turbulências que sua vida se transmutou
desde que seu vídeo viralizou nas redes sociais, ela foi buscando equilíbrio,
construindo sentido sobre seu papel na atual conjuntura de um movimento
estudantil descentralizado, que radicalizou na forma de chamar a atenção para
os problemas da educação, transitando entre desfazer os exageros sobre sua representatividade,
e a busca da compreensão do significado simbólico de seu discurso em um país
dividido, onde a intolerância virou regra.
Foi
em uma escola de Samambaia, região da periferia do Distrito Federal, ocupada
basicamente por meninas, àquela altura sendo ameaçadas de violência sobre seus
corpos, que ouvi de Ana afirmações que me impactaram.
Vou
cometer a imprudência de tentar reproduzir as palavras dela, tal como as ouvi e
sorvi naquele momento
“
Se vocês se sentem ameaçadas, se estão cansadas e com medo, desocupem. Não tem
problema. A minha escola foi desocupada, nós decidimos desocupar antes que a
polícia chegasse. Não deixem que digam que foram derrotadas. Desocupar não é
uma derrota. A luta não acaba com a desocupação, ela só entra em outra etapa. A
escola para a qual voltamos depois da ocupação não é mais a mesma escola, como
nós não somos mais as mesmas pessoas...”
Aquela
menina, de apenas 16 anos, que não tem nenhuma formação política estruturante,
que me disse que nunca havia se manifestado em público até a assembleia de sua
escola em Curitiba, falava agora com uma estupenda maturidade e compreensão a
respeito do que a move como indivíduo coletivizado, que enxerga o presente na
perspectiva do papel de sujeito que quer impactar o futuro. Longe do conforto
de ter um lado orgânico, um partido, uma entidade, ela acolhera o lado, sujeito
a toda sorte de críticas, de ter posição sobre o país em que vive, sobre as
políticas públicas em andamento. Enxerga a luta que optou por travar em etapas
que não se desconstrói diante das adversidades, mas se reelabora e forja novos
mecanismos de resistência.
Essa
mesma menina insistentemente recusava ser o centro de qualquer coisa; trocava o
“eu” por “nós” em cada frase, falava da escola como o lugar de seu coletivo
empoderamento. Dizia coisas como: a escola em que estudamos, ocupamos e desocupamos
é nossa. Nós a mudamos e transformamos na medida em que mudamos com ela. E
cobramos do Estado, das autoridades a parte que lhes cabe.
Paradoxalmente,
o temor do aproveitamento indevido de seus propósitos parecia limitar o alcance
de seu olhar sobre o todo que envolve sua presença como cidadã ativa no cenário
nacional, bem como sobre a necessidade do envolvimento de atores institucionais
como forma de evitar a criminalização do movimento estudantil de ocupação. A
visita a órgãos como a Unicef e a PGR foram cercadas de incertezas e
desconfianças, cujo propósito me desdobrei para explicar.
Hoje
ouvi Ana Júlia novamente, pelo vídeo, falando na Assembleia Legislativa de São
Paulo. Falou em pé, com altivez.
Fiquei
com a sensação de que esses poucos dias desde que a deixei no aeroporto para
voltar para Curitiba ela amadureceu uns 10 anos. A forma como denunciou os
abusos e desmandos de um Estado autoritário, incapaz de ouvir os estudantes no
que lhes é mais caro, a postura de um governo que impõe uma reforma do ensino
médio por meio de uma medida provisória, sem qualquer diálogo, sem qualquer
debate, que apresenta uma proposta para alterar a Constituição Federal
retirando verbas da educação, o modo como revelou a violência que sofrem os
estudantes nas ocupações, tem a indelével marca de alguém que compreendeu que
abriu uma porta e não há como voltar e se esconder dentro de casa.
Sobre
os temas que os estudantes defendem e que motivaram as ocupações, o
pronunciamento repetiu a mesma denúncia já feita na Assembleia Legislativa do
Paraná há algumas semanas, a mesma crença. Mas me pareceu outra Ana Júlia. Essa
me lembrou as meninas do movimento das ocupações das escolas em São Paulo no
ano de 2015 contra a reforma do ensino do governo de Geraldo Alckmin, cujo lema
era: “Lute Como Uma Menina!!!”. O tema da violência perpetrada contra os
estudantes ocupantes, que ainda não tinha aparecido na sua voz, deu a tônica de
sua fala na ALESP. Sua digressão sobre a escola como espaço da política demoveu
qualquer dúvida de que ela não teme associações indevidas com partidos ou
pessoas a partir de seu lugar de fala.
Sim,
a menina Ana Júlia ainda é serena, se acha tímida e se diz nervosa no primeiro
minuto em que lhe facultam a palavra. Ainda parece saber que temos um amanhã
incerto. Mas indica ser agora detentora da compreensão que está construindo,
junto com vários estudantes do país, uma ideia de futuro, contra todas as
adversidades, os riscos e medos. É isso que move seu presente.
A
Ana Júlia que falou na ALESP denunciou muito mais que uma PEC e uma MP. Ao
afirmar que a crise na educação se deve, inclusive, à falta de valorização dos
professores, à ausência de instrumentos e aparelhamento para uma produção do
conhecimento com qualidade, deu um salto enorme de percepção.
Não
se trata mais de uma luta do aqui e agora, de derrotar essa ou aquela medida. É
mais. O “ocupar a escola” ganhou, além do significado de luta por uma educação
pública digna e de qualidade, seu espaço de presença para uma ação
transformadora de um país desigual.