sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

NOVO ANO





Nenhuma outra atribuição poderia ser dada a 2016 melhor que a de plagiar descaradamente Zuenir Ventura em sua clássica obra sobre 1968. Esse, como aquele, pode ser considerado o ano que não terminou. Isso porque, coletivamente falando do nosso pedaço de mundo, dele levaremos, inexoravelmente, momentos cruciais em que a democracia foi posta à prova em seu grau de disfarçada normalidade, e fora rasgado o véu que vedava a luz à visão do empobrecido universo público e da fragilidade de nossas instituições.
Do ponto onde enxergo as coisas e sinto o ritmo da vida, 2016 foi um grande paradoxo. Quando olho pra trás penso que ele teve 700 dias, tamanha a quantidade de estragos concretizados. Por outro lado, muitos eventos se deram na velocidade twitter: enquanto se pensava a respeito, já foi! Não houve prazo para reação. Todo esforço pra acompanhar se equiparava à circunstância de alguém que se afoga, em luta para voltar a respirar a cada vez que afunda, de tal modo que propor que 2016 acabasse logo virou uma máxima, diante da falta de ar no tempo de agora; como se instigar algo para além das sequências de retrocessos tivesse, de fato, o condão de contaminar positivamente as expectativas do porvir, e o fim dos 365 dias fossem um ponto de rompimento de ciclo.
Como cidadãos de nosso lindo país, o que temos, afinal, para o futuro? Uma noção de realidade relegada pelo contemporâneo e confuso jogo de poder, que buscamos preencher com esperanças de promessas a alcançar...
Politicamente falando, para quem ainda ousa ser progressista e não tem interesses escusos, nosso fazer acontecer no Brasil pós 2016 mostra-se uma busca de suplantar e impedir os retrocessos sociais, trabalhistas, de justiça e defesa de direitos, esses sim, postos em desbaratada carreira após a tomada de poder pelo atual governo e a implantação de um programa nunca submetido à vontade popular, mas ao oposto, alvo de reações ignoradas e etiquetadas como desagregadoras.
Nossa procura é operada com quase nada posto à mesa das virtudes para cortar o devastador cotidiano e criar novos paradigmas. Os mecanismos dados e os inimigos a enfrentar nessa caminhada não são nada simples, nada facilitadores. Não há muitos atores com disposição de serem colocados dentro de uma lógica democrática. O jogo é incivilizado, mas acobertado por artifícios que o fazem parecer irrepreensível.
Sob a batuta de um governo que não fora eleito, homens de dispendiosos ternos e gravatas ditam ordens de seus escritórios em largas avenidas do país em nome do invisível mercado. É dada a hora de por em curso a decisão que antecedeu este momento de quem “pagaria o pato” da crise econômica do país. Homens de adulterados discursos, em um Congresso Nacional viciado e contaminado por práticas espúrias, aprovam as normas para colocar o trem do retrocesso nos trilhos e percorrer o caminho de volta ao passado. Do outro lado da mesma praça, homens de toga decidem quem participa do jogo, de que forma e em que posição, quem é expulso e quem é empoderado ou intocável; decidem o que segue e o que para. São os “donos da bola”. 
Nesse jogo em que impera toda sorte de práticas altamente questionáveis, antidemocráticas, anti-humanistas ou, para persistir na metáfora, antidesportistas, tentamos não ser apenas torcida, mas também influenciar nos resultados. Uma pergunta, contudo, não abandona a mente inquieta: como manter a esperança sabendo que não podemos ter ilusões? Como seguir quando os becos parecem mesmo não ter saídas?
Ai dei de lembrar desses meninos que estão ai, estudantes sedentos de fazer o novo, nos atordoando com suas formas de luta sem fórmulas organizativas previamente definidas, nos propondo autoquestionamentos,  nos instigando a querer ensinar e aprender outra vez, como a nos dizer que o nosso novo pra eles é apenas o lugar comum, nos fazendo duvidar de nossas certezas já tão sedimentadas sobre movimento, disciplina, método, praxis...E me pego respondendo ao grilo falante que habita minha cabeça que talvez o melhor mesmo seja não ter as respostas, senão nem haveria o que buscar.
Concluo que dessas garotas e garotos levarei a melhor parte de 2016 que, também por causa deles, não terminou. E, no fim, é apenas isso: 365 dias são um ciclo que se finda para que o próximo seja sempre a reinvenção da esperança, a busca do novo e da utopia perdida.

Vem 2017.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

SUPER LUA


















"A vida na Terra é má"

(Justine. Melancholia. Lars von Trier. 2011)


                Ontem no Senado quase jogado às moscas em véspera de feriado da República - essa senhora cujos princípios nunca estiveram tão postos a julgo - só se falava na tal super lua. Como no resto do país, creio. As fotos postadas nas redes sociais me lembravam o planeta fictício do Lars Von Trier em Melancolia. Uma imagem gigantesca e de uma beleza ímpar, daquele tipo que provoca fascínio.
Quem me conhece sabe da minha total falta de intimidade com essas coisas de calendário lunar, constelações, astrologia, exoterismo e seus afins. Mas, afinal, alguém precisa entender a lua? Sempre me ocorreu que apenas louvá-la seja suficiente. E isso, na Amazônia, a gente aprende desde a tenra idade. Nos primeiros anos de vida meu pai me cantarolava a cantiga da lua, sentados na varanda de nossa casa, nuns versos comoventes e singelos: “lua, luar, quantos peixinhos há no mar, que ninguém sabe contar? lua, luar, pega essa menininha e me ajuda a criar” Uma parlenda que nunca vi em livro algum, mas ficou guardada fundo na memória dos afetos.  
A ausência dos predadores na câmara alta do parlamento não é desprezível. Significa respirar alguma suavidade, ter uma conversa desse jeito, que parece redonda, mas ao mesmo tempo pode faltar um pedaço. Ser crescente para que possa ficar cheia de sentidos e quando minguante parecer um sorriso, como aquele do gato de Alice.
É assim que seguimos daqui olhando o céu sem desgrudar da Terra, com a exata noção de que as super nuvens às vezes nos impede de enxergar o que está por trás e acima, e a imagem onírica que nos deslumbra ao mesmo tempo pode, na antítese da impactante frase da protagonista do filme, a depressiva Justine, nos impelir a manter a luta por um lugar bom para viver.


quinta-feira, 10 de novembro de 2016

A MENINA E A PALAVRA


A fala de Ana Júlia Ribeiro, a estudante paranaense, que me comoveu profundamente não foi a que viralizou nas redes. Aliás, não foi filmada nem gravada em áudio, não foi dita em audiência pública nem à imprensa.
Responsável por sua estada em Brasília nos dias 30 e 31 de outubro, quando veio para a audiência pública na Comissão de Direitos Humanos do Senado, a levei, a pedido dela mesma, em escolas ocupadas aqui no Distrito Federal. Descobri, logo ao primeiro contato, que Ana Júlia não é um clichê, não é um produto de mídia forjado por um discurso que deu certo, não tem presunção de ser líder, nem a arrogância de possuir as respostas.  
Nas escolas que visitamos ela criou, como era esperado, uma espécie de catarse coletiva. Legítima e legitimada pela força e impacto que seu testemunho alcançou,  arrancou lágrimas e gritos das meninas e meninos. Entre surpresa e comovida, conversou com todos sobre a coerência do movimento que desencadearam. E foi difícil tirá-la de lá, tamanha a comoção que sua presença provocou.
Temerosa do uso de sua imagem e sabedora dos riscos que a superexposição causa a si mesma e à sua família, Ana somente parecia completamente à vontade junto aos outros estudantes. É quando me forçava a lembrar que ela é uma adolescente como outra qualquer, e adultos são estranhos em alguns nichos. No universo de turbulências que sua vida se transmutou desde que seu vídeo viralizou nas redes sociais, ela foi buscando equilíbrio, construindo sentido sobre seu papel na atual conjuntura de um movimento estudantil descentralizado, que radicalizou na forma de chamar a atenção para os problemas da educação, transitando entre desfazer os exageros sobre sua representatividade, e a busca da compreensão do significado simbólico de seu discurso em um país dividido, onde a intolerância virou regra.
Foi em uma escola de Samambaia, região da periferia do Distrito Federal, ocupada basicamente por meninas, àquela altura sendo ameaçadas de violência sobre seus corpos, que ouvi de Ana afirmações que me impactaram.
Vou cometer a imprudência de tentar reproduzir as palavras dela, tal como as ouvi e sorvi naquele momento

“ Se vocês se sentem ameaçadas, se estão cansadas e com medo, desocupem. Não tem problema. A minha escola foi desocupada, nós decidimos desocupar antes que a polícia chegasse. Não deixem que digam que foram derrotadas. Desocupar não é uma derrota. A luta não acaba com a desocupação, ela só entra em outra etapa. A escola para a qual voltamos depois da ocupação não é mais a mesma escola, como nós não somos mais as mesmas pessoas...”

Aquela menina, de apenas 16 anos, que não tem nenhuma formação política estruturante, que me disse que nunca havia se manifestado em público até a assembleia de sua escola em Curitiba, falava agora com uma estupenda maturidade e compreensão a respeito do que a move como indivíduo coletivizado, que enxerga o presente na perspectiva do papel de sujeito que quer impactar o futuro. Longe do conforto de ter um lado orgânico, um partido, uma entidade, ela acolhera o lado, sujeito a toda sorte de críticas, de ter posição sobre o país em que vive, sobre as políticas públicas em andamento. Enxerga a luta que optou por travar em etapas que não se desconstrói diante das adversidades, mas se reelabora e forja novos mecanismos de resistência.
Essa mesma menina insistentemente recusava ser o centro de qualquer coisa; trocava o “eu” por “nós” em cada frase, falava da escola como o lugar de seu coletivo empoderamento. Dizia coisas como: a escola em que estudamos, ocupamos e desocupamos é nossa. Nós a mudamos e transformamos na medida em que mudamos com ela. E cobramos do Estado, das autoridades a parte que lhes cabe.
Paradoxalmente, o temor do aproveitamento indevido de seus propósitos parecia limitar o alcance de seu olhar sobre o todo que envolve sua presença como cidadã ativa no cenário nacional, bem como sobre a necessidade do envolvimento de atores institucionais como forma de evitar a criminalização do movimento estudantil de ocupação. A visita a órgãos como a Unicef e a PGR foram cercadas de incertezas e desconfianças, cujo propósito me desdobrei para explicar. 
Hoje ouvi Ana Júlia novamente, pelo vídeo, falando na Assembleia Legislativa de São Paulo. Falou em pé, com altivez.
Fiquei com a sensação de que esses poucos dias desde que a deixei no aeroporto para voltar para Curitiba ela amadureceu uns 10 anos. A forma como denunciou os abusos e desmandos de um Estado autoritário, incapaz de ouvir os estudantes no que lhes é mais caro, a postura de um governo que impõe uma reforma do ensino médio por meio de uma medida provisória, sem qualquer diálogo, sem qualquer debate, que apresenta uma proposta para alterar a Constituição Federal retirando verbas da educação, o modo como revelou a violência que sofrem os estudantes nas ocupações, tem a indelével marca de alguém que compreendeu que abriu uma porta e não há como voltar e se esconder dentro de casa.
Sobre os temas que os estudantes defendem e que motivaram as ocupações, o pronunciamento repetiu a mesma denúncia já feita na Assembleia Legislativa do Paraná há algumas semanas, a mesma crença. Mas me pareceu outra Ana Júlia. Essa me lembrou as meninas do movimento das ocupações das escolas em São Paulo no ano de 2015 contra a reforma do ensino do governo de Geraldo Alckmin, cujo lema era: “Lute Como Uma Menina!!!”. O tema da violência perpetrada contra os estudantes ocupantes, que ainda não tinha aparecido na sua voz, deu a tônica de sua fala na ALESP. Sua digressão sobre a escola como espaço da política demoveu qualquer dúvida de que ela não teme associações indevidas com partidos ou pessoas a partir de seu lugar de fala.
Sim, a menina Ana Júlia ainda é serena, se acha tímida e se diz nervosa no primeiro minuto em que lhe facultam a palavra. Ainda parece saber que temos um amanhã incerto. Mas indica ser agora detentora da compreensão que está construindo, junto com vários estudantes do país, uma ideia de futuro, contra todas as adversidades, os riscos e medos. É isso que move seu presente.
A Ana Júlia que falou na ALESP denunciou muito mais que uma PEC e uma MP. Ao afirmar que a crise na educação se deve, inclusive, à falta de valorização dos professores, à ausência de instrumentos e aparelhamento para uma produção do conhecimento com qualidade, deu um salto enorme de percepção.

Não se trata mais de uma luta do aqui e agora, de derrotar essa ou aquela medida. É mais. O “ocupar a escola” ganhou, além do significado de luta por uma educação pública digna e de qualidade, seu espaço de presença para uma ação transformadora de um país desigual.

terça-feira, 8 de março de 2016

Nós, essas “feministas chatas”



Emma Watson, a garota que o mundo inteiro conhece por interpretar a personagem Hermione da série Harry Potter, proferiu, em setembro de 2014 um discurso na ONU no lançamento da campanha HeForShe.
De suas emocionantes palavras extraio fragmentos para falar de um tema que costuma ser bastante discutido nas redes sociais, mas pouco nos espaços dos debates internos.
“Eu decidi que eu era uma feminista. Isso não parecia complicado pra mim. Mas minhas pesquisas recentes mostraram que feminismo virou uma palavra não muito popular. ”
Moça lúcida. Ser feminista não é popular. Não é na Inglaterra, seu país, e no Brasil tampouco.  Por mais que tenhamos avançado, como sociedade, na conquista de direitos das mulheres e isso tenha ocorrido, inexoravelmente, pela força organizativa e militante dos movimentos feministas, há estereótipos criados e perpetuados em torno do termo no sentido de desqualificá-lo, moldar-lhe os significados, desvirtuá-lo.  Um deles, talvez o mais emblemático é que “feministas são chatas”, o que estaria, em regra, associada a um potencial policiamento de comportamento efetuado pelas mulheres em relação aos homens, ou mesmo em relação a outras mulheres, por suas atitudes e palavras.
Historicamente há uma subjetividade estrutural fortemente enraizada e de difícil acesso cognitivo no comportamento e na linguagem quando se trata de questões femininas. Reduzir a militância à “chatice” enclausura o todo significante da busca de protagonismo, da quebra de tabus e mitos sobre a posição das mulheres no mundo.
Uma análise sensata sobre comportamentos irá compreender que preconceitos se manifestam o tempo todo e não se originam apenas nas e pelas ações dos indivíduos, mas de forma prévia a eles, pelo hábito e naturalidade com que a sociedade sempre os tratou.
O problema do machismo é o mesmo conferido aos preconceitos em geral. A larga maioria das pessoas não se acha machista, não se sente machista. Em decorrência, costuma etiquetar atitudes e frases como piadas ou brincadeiras. Quando e se questionada, coloca-se na posição de vítima, de quem foi mal interpretada. Se vê, de fato, como alguém a quem se está questionando a ética, o que lhe parece inaceitável.
Nesse caminho, persistir na tentativa de mostrar ao indivíduo que há espaço para repensar, para educar, esclarecer ou dialogar sobre a atitude preconceituosa é se colocar na posição de quem vai receber uma versão invertida das coisas: alguém fez uma inocente brincadeira, um trocadilho, uma piada, apresentou uma foto, uma charge, e uma “feminista chata” distorceu.
Apostar no diálogo e ter serenidade para se ver dentro do contexto em que frases ou atitudes ditas inocentes ou sem intenção de ofender são proferidas é exercício concreto para ultrapassar o caminho fácil e preguiçoso da repetição pelo costume. É legítimo e necessário que se chame a atenção para elas, justamente para que seja posta a possibilidade de revê-las.
Feministas não querem que suas vozes sirvam para calar ninguém, mas para dialogar, fazer-se ouvir e ouvir em troca. Para isso é preciso que sejam contestadas as manifestações descabidas e desmesuradas, sem o que o indivíduo perde a chance de defrontar-se com sua prática.


Parafraseando Gilberto Gil “só quem já morreu na fogueira sabe o que é ser carvão “. É o ofendido - no caso a ofendida - que pode falar sobre a ofensa, não o ofensor. Àquele cabe tentar alcançar o potencial de seu insulto, sem diminuí-lo para parecer inócuo, sem desprezá-lo para se afigurar menor.  É aí que se firma a chance de enfrentar a contradição das miudezas cotidianas das condutas machistas.