Nenhuma outra
atribuição poderia ser dada a 2016 melhor que a de plagiar descaradamente
Zuenir Ventura em sua clássica obra sobre 1968. Esse, como aquele, pode ser
considerado o ano que não terminou. Isso
porque, coletivamente falando do nosso pedaço de mundo, dele levaremos,
inexoravelmente, momentos cruciais em que a democracia foi posta à prova em seu
grau de disfarçada normalidade, e fora rasgado o véu que vedava a luz à visão
do empobrecido universo público e da fragilidade de nossas instituições.
Do ponto onde enxergo
as coisas e sinto o ritmo da vida, 2016 foi um grande paradoxo. Quando olho pra
trás penso que ele teve 700 dias, tamanha a quantidade de estragos
concretizados. Por outro lado, muitos eventos se deram na velocidade twitter: enquanto se pensava a respeito,
já foi! Não houve prazo para reação. Todo esforço pra acompanhar se equiparava
à circunstância de alguém que se afoga, em luta para voltar a respirar a cada
vez que afunda, de tal modo que propor que 2016 acabasse logo virou uma máxima,
diante da falta de ar no tempo de agora; como se instigar algo para além das
sequências de retrocessos tivesse, de fato, o condão de contaminar
positivamente as expectativas do porvir, e o fim dos 365 dias fossem um ponto
de rompimento de ciclo.
Como cidadãos de nosso
lindo país, o que temos, afinal, para o futuro? Uma noção de realidade relegada
pelo contemporâneo e confuso jogo de poder, que buscamos preencher com
esperanças de promessas a alcançar...
Politicamente falando,
para quem ainda ousa ser progressista e não tem interesses escusos, nosso fazer
acontecer no Brasil pós 2016 mostra-se uma busca de suplantar e impedir os
retrocessos sociais, trabalhistas, de justiça e defesa de direitos, esses sim, postos
em desbaratada carreira após a tomada de poder pelo atual governo e a
implantação de um programa nunca submetido à vontade popular, mas ao oposto, alvo
de reações ignoradas e etiquetadas como desagregadoras.
Nossa procura é
operada com quase nada posto à mesa das virtudes para cortar o devastador
cotidiano e criar novos paradigmas. Os mecanismos dados e os inimigos a
enfrentar nessa caminhada não são nada simples, nada facilitadores. Não há
muitos atores com disposição de serem colocados dentro de uma lógica
democrática. O jogo é incivilizado, mas acobertado por artifícios que o fazem
parecer irrepreensível.
Sob a batuta de um
governo que não fora eleito, homens de dispendiosos ternos e gravatas ditam
ordens de seus escritórios em largas avenidas do país em nome do invisível
mercado. É dada a hora de por em curso a decisão que antecedeu este momento de
quem “pagaria o pato” da crise econômica do país. Homens de adulterados
discursos, em um Congresso Nacional viciado e contaminado por práticas
espúrias, aprovam as normas para colocar o trem do retrocesso nos trilhos e
percorrer o caminho de volta ao passado. Do outro lado da mesma praça, homens
de toga decidem quem participa do jogo, de que forma e em que posição, quem é
expulso e quem é empoderado ou intocável; decidem o que segue e o que para. São
os “donos da bola”.
Nesse jogo em que
impera toda sorte de práticas altamente questionáveis, antidemocráticas,
anti-humanistas ou, para persistir na metáfora, antidesportistas, tentamos não
ser apenas torcida, mas também influenciar nos resultados. Uma pergunta,
contudo, não abandona a mente inquieta: como manter a esperança sabendo que não
podemos ter ilusões? Como seguir quando os becos parecem mesmo não ter saídas?
Ai dei de lembrar desses
meninos que estão ai, estudantes sedentos de fazer o novo, nos atordoando com
suas formas de luta sem fórmulas organizativas previamente definidas, nos
propondo autoquestionamentos, nos
instigando a querer ensinar e aprender outra vez, como a nos dizer que o nosso
novo pra eles é apenas o lugar comum, nos fazendo duvidar de nossas certezas já tão sedimentadas sobre movimento, disciplina, método, praxis...E me pego respondendo ao grilo falante que
habita minha cabeça que talvez o melhor mesmo seja não ter as respostas, senão nem
haveria o que buscar.
Concluo que dessas garotas e garotos levarei a melhor parte de 2016 que, também por causa deles, não terminou. E, no fim, é
apenas isso: 365 dias são um ciclo que se finda para que o próximo seja sempre
a reinvenção da esperança, a busca do novo e da utopia perdida.
Vem 2017.



