Saramago criava suas personagens com maestria. Sua personagem central na
obra “Ensaio sobre a Cegueira” – um dos livros que me consumiu horas de sono pós-leitura
– afirma em determinado momento da narrativa: “no fundo de cada um de nós há algo sem nome; esta coisa é o que
somos”. Acontece que o “nós” lá do fundo pode abandonar o lugar incerto e
não sabido quando é defrontado com momentos complexos e difíceis da vida. Sim,
porque nas passagens de calmaria é bem fácil a razoabilidade, a confiança e a
sapiência. No outro extremo podem surgir os desatinos, naquela assertiva
pontuada por um dito popular: “é na tormenta que se conhece os marinheiros.”
Nossa história contemporânea nos coloca a todo instante diante de
avassaladoras negações do pensamento. Vemos o chamado senso comum curvar-se
sobre si mesmo. Estamos diante de tempos difíceis, muito difíceis. Não é
preciso enxergar muito pra ver. No Brasil, basta observar a atordoante vocação
da imprensa pela superfície das coisas, pelas perguntas mais rudimentares, os
comentários mais pífios e os questionamentos que não são feitos, em troca do
elogio mudo à intolerância. E ela está nas ruas, cada dia mais, nos gritos e
faixas pedindo a volta à ditadura, na barbárie travestida de liberdade de
expressão que tenta impedir a presença de pessoas em espaços públicos, no braço armado do Estado que ceifa a vida de meninos pobres e negros nas
periferias, no exercício de racismo, homofobia e machismo nas redes sociais, na caneta e voz de um déspota que usa o poder para tentar um golpe branco na
democracia.
Este é, sem dúvida, um oportuno momento para que aquilo que somos, naquele
fundo, venha à tona. Ele pode revelar-se virtuoso ou indigno, nas postagens das
redes sociais, nas manifestações de rua ou até nos silêncios convenientes e
covardes.
No outro lado da corda, em extraordinária eloquência, meninas e meninos
estudantes da rede pública de ensino de São Paulo decidiram resistir à mudança
imposta pelo governo do Estado de reestruturação das escolas. E a primeira
coisa que precisa ser dita sobre isso, além do conteúdo, é que a decisão do
poder público local fora tomada sem que nenhum segmento diretamente afetado –
estudantes, professores e famílias – fossem sequer ouvidos. Consistia, em
síntese, em separar os ciclos escolares nas unidades de ensino, fechando cerca
de 90 delas. Estudantes resolveram defender suas escolas, ocupando-as. E sua
resistência, nesses sombrios tempos, tem nos ofertado grandes lições. Os vídeos
e fotos postos na internet são assombrosos. Meninas e meninos em inacreditáveis
diálogos, em assembléias com o Poder Judiciário, sendo presos, espancados. Vi
olhares desafiadores, encarando policiais armados, braços erguidos, “mentes
quietas, espinhas eretas”. Impossível pra quem fez movimento estudantil desde a
fase escolar, já em tempos de democracia, não lembrar de si mesma e se
solidarizar com orgulho.
Eles conseguiram! Na sexta-feira, dia 04/12, o governador Geraldo Alckmin anunciou o adiamento da reorganização
escolar por um ano, afirmando que abrirá o diálogo com a comunidade escolar
para discutir a reforma na educação paulista durante o ano de 2016.
Sua vitória tem um sabor revigorante, não pelo conteúdo apenas, mas pela
força que demonstraram em resistir. Em mim, essas garotas e garotos afastarem essa
incômoda sensação de dar murro em ponta de faca e malhar em ferro frio, esses
miúdos ditos populares, que expressam perder tempo. Disseram-me sem dizer que é
preciso recuperar, sem mais, o alimento filosófico de trabalho de que vamos
plantando o necessário para colher o possível. Impuseram-me retomar os
exercícios sobre a luz, enxergar além da cegueira coletiva, para não me render.
Porque em horas assim, por paradoxal que pareça, a incerteza é a única coisa
certa.
E no final das contas me surpreendo lembrando que, independentemente do que venha a acontecer na batalha que se avizinha, vale o velho jargão de esquerda de que a
luta sempre continua e tudo sempre recomeça.
Seguir.

Baita texto!!!
ResponderExcluirNão tinha lido antes. Você devia avisar quando publica. Impecável, como sempre. :)
ResponderExcluir10 anos depois! Atual e certeiro! Não tem outra saída. Mas é preciso chacoalhar mais.
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