sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Querô

Ontem à noite eu fui com o namorado ver "Querô", o filme baseado na obra do Plínio Marcos, Uma Reportagem Maldita (Querô), de 1976.
Sabendo da sinopse e repercussão, já que a película fora premiada nos festivais nacionais antes de entrar no circuito comercial, fui pro cinema com alguma ideia do que veria, embora nunca tenha lido o livro do Plínio. Conhecer o roteiro não impediu, contudo, que fosse tomada, à saída, de uma tristeza extrema, que sempre me acomete nessas ocasiões, em que me vejo diante de uma narrativa intensa de uma realidade observada ao meu redor.
A história do garoto, filho de uma prostituta e órfão desde que nascera, é lugar comum social. Tão comum que nos passa ao largo muitas vezes. As situações limites de violência, abandono e desamor da situação miserável de Querô não impedem nossa percepção, elaborada pelo diretor, de suas dores de menino solitário e potencialmente terno, que exala ódio pelos poros pelo mundo que o renega. Suas tentativas de mudar seu destino amaldiçoado estão carregadas dos emblemas do impossível. A vida que lhe é ofertada (ou sonegada?) exige um ser humano “macho”, com poder suficiente para se impor em meio às mazelas e gritar sua vontade de conquista.
O Alê viu uma analogia com Pixote, o filme do Babenco, nas cenas iniciais que não consegui enxergar. Mas, é óbvio que há um entrecruzamento das histórias. Querô é uma modalidade de Pixote e vice-versa, crianças de quem foi tirado o direito à infância, que foram expostas e empurradas para o desenlace mais cruel da existência, que encontram nas ruas e no furto o mote de seus encontros com o futuro, uma janela para suas expressões. E são vistas, sobretudo pelos homens que interligam segurança pública com punibilidade, como “menores delinquentes”, naquele jeito muito simplório de que representam expressão do mal a nós, pessoas “comuns e inocentes” da sociedade, em um esquecimento cruel e grotesco de tudo que os antecede. E deixando na superfície o que há por trás da história de cada menino, limitando a análise à sua biografia de atos praticados de delinquência.
São os mesmos que zombam dos Direitos Humanos, chamando-os de direitos de bandidos, que pedem a pena de morte, que pugnam pela diminuição da maioridade penal.
Querô é, em sua essência de ser humano, a dicotomia explícita de dor e ternura, infância e medo, ingenuidade e coragem, resistência e fome, carisma e violência.

Não sou estraga-prazeres, então não falarei sobre o enredo. Quem ainda não viu, vá ver.