Emma Watson, a garota que o mundo inteiro
conhece por interpretar a personagem Hermione da série Harry Potter, proferiu,
em setembro de 2014 um discurso na ONU no lançamento da campanha HeForShe.
De suas emocionantes palavras extraio
fragmentos para falar de um tema que costuma ser bastante discutido nas redes
sociais, mas pouco nos espaços dos debates internos.
“Eu
decidi que eu era uma feminista. Isso não parecia complicado pra mim. Mas
minhas pesquisas recentes mostraram que feminismo virou uma palavra não muito popular.
”
Moça lúcida.
Ser feminista não é popular. Não é na Inglaterra, seu país, e no Brasil
tampouco. Por mais que tenhamos
avançado, como sociedade, na conquista de direitos das mulheres e isso tenha
ocorrido, inexoravelmente, pela força organizativa e militante dos movimentos
feministas, há estereótipos criados e perpetuados em torno do termo no sentido
de desqualificá-lo, moldar-lhe os significados, desvirtuá-lo. Um deles, talvez o mais emblemático é que
“feministas são chatas”, o que estaria, em regra, associada a um potencial
policiamento de comportamento efetuado pelas mulheres em relação aos homens, ou
mesmo em relação a outras mulheres, por suas atitudes e palavras.
Historicamente
há uma subjetividade estrutural fortemente enraizada e de difícil acesso
cognitivo no comportamento e na linguagem quando se trata de questões femininas.
Reduzir a militância à “chatice” enclausura o todo significante da busca de
protagonismo, da quebra de tabus e mitos sobre a posição das mulheres no mundo.
Uma análise sensata sobre comportamentos irá compreender que
preconceitos se manifestam o tempo todo e não se originam apenas nas e pelas
ações dos indivíduos, mas de forma prévia a eles, pelo hábito e naturalidade
com que a sociedade sempre os tratou.
O problema do
machismo é o mesmo conferido aos preconceitos em geral. A larga maioria das
pessoas não se acha machista, não se sente machista. Em decorrência, costuma
etiquetar atitudes e frases como piadas ou brincadeiras. Quando e se
questionada, coloca-se na posição de vítima, de quem foi mal interpretada. Se
vê, de fato, como alguém a quem se está questionando a ética, o que lhe parece
inaceitável.
Nesse
caminho, persistir na tentativa de mostrar ao indivíduo que há espaço para
repensar, para educar, esclarecer ou dialogar sobre a atitude preconceituosa é
se colocar na posição de quem vai receber uma versão invertida das coisas:
alguém fez uma inocente brincadeira, um trocadilho, uma piada, apresentou uma
foto, uma charge, e uma “feminista chata” distorceu.
Apostar no diálogo e ter serenidade
para se ver dentro do contexto em que frases ou atitudes ditas inocentes ou sem
intenção de ofender são proferidas é exercício concreto para ultrapassar o
caminho fácil e preguiçoso da repetição pelo costume. É legítimo e necessário
que se chame a atenção para elas, justamente para que seja posta a possibilidade
de revê-las.
Feministas não querem que suas vozes
sirvam para calar ninguém, mas para dialogar, fazer-se ouvir e ouvir em troca.
Para isso é preciso que sejam contestadas as manifestações descabidas e
desmesuradas, sem o que o indivíduo perde a chance de defrontar-se com sua
prática.
Parafraseando Gilberto Gil “só quem já morreu na fogueira sabe o que é
ser carvão “. É o ofendido - no caso a ofendida - que pode falar sobre a
ofensa, não o ofensor. Àquele cabe tentar alcançar o potencial de seu insulto,
sem diminuí-lo para parecer inócuo, sem desprezá-lo para se afigurar
menor. É aí que se firma a chance de
enfrentar a contradição das miudezas cotidianas das condutas machistas.
