terça-feira, 29 de setembro de 2015

Caíram gotas de chuva na cidade com asas. Não que as tenha visto, fechada no subterrâneo mundo da realpolitik brasileira, às voltas com escritas e delongas. Eu as percebi pelo cheiro emanado do jardim que fica ao lado da sala. Quando sai já era noite. Só então pude decifrar que não foram tímidas, beijaram pra valer o solo e deixaram um frescor de inverno em plena segunda primaveril de secura ímpar. Não sei onde foi parar o sol que brilhava quando entrei no prédio pra trabalhar. Talvez tenha se ressentido de minha chateação por ele estar lá enquanto eu não podia desfrutá-lo.
Em casa vejo que o ipê roxo da janela não só deflorou mas desfolhou. Tá lá assim, quieto, só galhos. Não há vento que o mova. Silencioso, meio fúnebre, como a esperar que lhe devolvam as vestes.
Mas há um cheiro úmido no ar e, de repente, o silêncio assemelha-se a uma silenciosa prece dos seres vivos pela bem-vinda água. Sim, há beleza na quietude.

E eu, que não resisto aos encantos da natureza, debruço-me na janela, observo e me deixo ficar suspensa nos mundos dos jardins dos canteiros das ruas de Brasília.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Insônia


Aqui em meio a mais uma de minhas já costumeiras insônias faço proveito do silêncio instaurado pela madrugada para dedilhar as únicas teclas, nada musicais, de que sou capaz.
Brasilia veraneia. Sim, sei que o calendário diz que é primavera, mas estamos sendo assados vivos e os ipês já defloraram. Então não vou brigar com as estações se elas estão como o mundo: loucas! E falta ar. Embora isso – desconfio – não se deva unicamente à ausência de umidade no Planalto Central...
Ando às tontas com as coisas no trabalho, com a eterna sensação de “dejavu”. Voltinhas pra lá e pra cá e as mesmas velhas novidades.
Um passo à frente, dois atrás. Enquanto o juiz-herói aplica suas penas na enésima etapa da operação Lava Jato, a Polícia Federal prende “meio mundo de gente” e o Ministério Público pede abertura de dúzias de inquéritos, as notícias chegam aos borbotões: pessoas ensandecidas se sentem autorizadas e empoderadas para constranger outras de quem discordam em agressões previamente articuladas, a polícia apreende menores em ônibus no Rio, servidores do GDF fazem paralização contra o pacote do governo local, o dólar continua subindo, a bolsa caindo. Os parlamentares fingem que legislam em prol do país e tomam grandes decisões, quando de fato tramam em surdina, observam, espreitam. E as cartas ficam escondidas nas mangas. Todos blefam.
Diante da crise instalada, do desgoverno, cada momento pode decidir o futuro. “Pode acontecer tudo, inclusive nada”. No plano externo das atitudes há um fingimento de tranqüilidade de uns e vitória de outros, o que gera algumas ladainhas repulsivas dos novos combatentes da corrupção, onde nem a entonação da voz consegue minimamente parecer verdadeira.
A sessão do Congresso ontem terminou quase três horas da manhã. Discursos loooooongos. Infindáveis altercações sobre o nada.
Digam vocês: como se aguenta essa palhaçada institucionalizada?
Ando contando os dias, porque já tomei todas as minhas doses de veneno pra suportar. Estoque encerrado.Aquela frase do Fernando Pessoa que diz: “a vida precisa de pausas” nunca me foi tão poética quanto agora.
É que a minha vida, em particular, precisa de uma pausa longa chamada férias, esse plural maravilhoso, que rima com papo pro ar total, contemplar as fases e brilhos da lua, buscar doses de poesia sem agonia, me espalhar no sol, boiar no mar e ficar bem longe dessa fofocada de impeachment e suas tentativas de impedi-lo, mudança de equipe de governo, quem vai, quem fica, quem troca e quem chega. Chega! Quero pular essa parte pra ir logo ao que interessa, botar o pé lá na frente, nas muitas coisas a fazer.
No poder como na vida a cada hora novas estradas são abertas, novos desígnios nos marcam e encruzilhadas aparecem outra vez. E, em meio às opções, cada um que se torne o rei de seu castelo.
Ai, noite insone. Enquanto minha metade racional trava uma briga incansável com minha alma, o sono recusa-se a chegar, a mente fica inventando coisas. Se paro pra ler, o passeio pelas letras embaralha e turva minha visão, tornando tudo incompreensível.
Onde será que se esconde a chave do segredo do que somos de fato?
Há alguma beleza oculta em enfrentar os dias?
O Almir Sater traduziu assim:
 “Penso que cumprir a vida seja simplesmente
compreender a marcha, e ir tocando em frente..”
Vou ali contar carneirinhos, cachorrinhos, gatinhos, coelhinhos, oncinhas...

sábado, 5 de setembro de 2015

Eis-me aqui novamente, povoada de sonhos e as mesmas incertezas.

Lembrei que existe um espaço que criei e larguei, embora as letras fiquem brincando de

querer sair e se espalhar no papel virtual.

Recomeço? Sim. Até quando.........ai é outra história. 

Migrando para outro endereço perco os doces e significantes comentários, mas o espaço 

era ruim, então decido fazê-lo e mantendo somente alguns textos. 

Ai é copiar Drummond: 
Não importa onde você parou…
em que momento da vida você cansou…
o que importa é que sempre é possível e
necessário “Recomeçar”.